10.6.07

Shuffle 5

Talvez o maisraquinho até agora? Ah, foda-se.

1-
New Year’s Day – U2

“Though I want to be with you
Be with you night and day
Nothing changes
On New Year's Day”

Teremos fogos e teremos festa, teremos champanha, cocaína e beijos cheios de areia. E você talvez se alegre, e consiga enxergar quem está ao seu redor, e pare de pensar em quem não está.

Nós vamos te levar para a praia, vamos te botar naquela fila de pessoas vestidas de branco. Elas estão esperando para receber um passe daquela mulher com o turbante que está segurando palmas. Brancas, as palmas e, é claro, o turbante. Talvez depois do passe você consiga nos enxergar e ficar feliz por estarmos aqui. Pare de pensar em quem não está.

Perdemos um dos nossos! – ele se afastou para urinar e não voltou mais. Nós só vamos saber disso amanhã, mas ele dormiu no jardim em frente ao edifício Chopin, se arranhou todo numas plantas espinhentas que tem lá. Você vai estar miserável, de ressaca, mas vai rir disso mesmo assim. “No Chopin?” e vai rir e sentir a cabeça latejar. “No Chopin! Eu acho que vi a Narcisa!”. E todos vão rir como no final de um desenho animado da Liga da Justiça.


2- Dreams – Fleetwood Mac

“Thunder only happens when it's raining
Players only love you when they're playing
Women they will come and they will go
When the rain washes you clean you'll know”


Num dia frio, na solidão do que poderia ter sido, você diz que vai vir bater, com fome e cansado, na minha portinha. Eu não sei como você consegue ir tão livre, sem ter para o que retornar. Eu invejo essa sua liberdade, mesmo sabendo que você não é livre, que o seu medo de perder isso que você chama de liberdade te aprisiona. Você não ficou por esse medo, se deixou carregar por oceanos e desfiladeiros onde nenhuma pomba se esconde. Era que nem aquele meu sonho recorrente, lembra, eu te contei dele, aquele lindo cavalo branco e poderoso que galopava pela estrada reta de asfalto brilhante. E a paisagem se alterava pouco ao seu redor, e era lindo, mas muito agonizante, pois ele não chegava em lugar nenhum. Onde você pretende ir antes de vir bater na minha portinha, meu amor? Lugar nenhum sempre pode te esperar. ( O triste é que eu também.)


3- Clothes Of Sand – Nick Drake

“Clothes of sand have covered your face
Given you meaning taken my place
So make your way on, down to the sea
Something has taken you, so far from me”

O tempo não é meu amigo, aqui o tempo me desconhece. Eu cobri meu rosto para me proteger do vento, eu cobri o rosto para você não poder ouvir o que eu dizia: que essas palavras fiquem aqui, abafadas entre os meus lábios e esse lenço feio.

Eu te vi através dos vitrais da catedral. Um retalho de luz vermelha sobre os seus olhos, um retalho de luz azul sobre os seus lábios. Você foi lá mudar o seu nome, e eu não pude ouvir o seu nome novo. Tinha areia nos meus ouvidos.

O barco está te esperando para zarpar. Centenas de crianças órfãs à bordo. O barco não espera por ninguém, só por você. Eu fui buscar meu lenço branco, para acená-lo em direção aos seus olhos de escotilha marejados. Mas cheguei tarde demais, só vi uma migalha de vapor no horizonte.


4- The Song Is Still Slipping Away – Shooter Jennings

“Your heroes turn out to be assholes
And the light in the tunnel that you're chasing is a train
The singer's in key the guitars in tune
But the song is still slipping away”


Acordei com a canção sob a língua. Ela sumiu, em rewind rápido, e eu a perdi. Fiz um exercício intenso de memória por alguns minutos, mais nada a podia trazer de volta. Derrapou em uma curva na mente, eu ouvi o cantar dos pneus, e voltou para de onde ela veio, onde quer que seja isso.

Ela irá voltar um dia, surpresa, meio esfarrapada, fora do tom, em um murmuro no elevador. E eu terei certeza que ela estava lá o tempo todo, mas fora do meu alcance.


5- Solidão – Cascatinha & Inhana

“Mas quanta ilusão
Tudo é solidão
Ela já morreu
E a brisa sem dó
Apagou no pó
O rastinho seu.”


A culpa que nós não tivemos é o que mais me atormenta e me fere. Na divisão dos bens cada um partiu com o que tinha, o bom e o ruim, claro, óbvio, sem debates. Mas na sala vazia uma sombra se projetava, no assoalho de tábuas largas, ali, a sombra. Olho para o céu como idiota e nada vejo. A sombra era só um significante, sem o significado que a projetasse. E mesmo assim fomos incapazes de simplesmente abandona-la ao próximo inquilino. A sombra da culpa que nós não tivemos paira lá ainda, sob o nosso olhar perplexo que a acha sempre que viramos a cabeça para trás. Está aqui no canto dos meus olhos, embaçando a minha visão periférica.


6- Rap Classe A – MCs Rafa, Galo e Catra

“Formiga de tamanco não sobe parede, não,

E perna de barata não é serrote, meu irmão”.


Por aqui as coisas começam a ficar estranhas depois das duas da manhã, ou entre o quinto e o sétimo baseado, ou entre a quarta e a sexta carreira. Aí a ressaca física começa a aparecer no fundo dos olhos, e a ressaca moral começa a azucrinar, baixinho, no silêncio entre as palavras. Nessa altura do campeonato você já está fodido. Se você for pra casa tentar dormir ou se você continuar a se afundar nas entranhas sujas da noite, tanto faz, já é tarde demais. Se o sol saiu, não vá pra casa.

Ele vira, me passando o isqueiro, e sorri: “Sabe como é que é, agora abraça o capeta e peida.”

3.6.07

Salmo 22

1 Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? por que estás afastado de me auxiliar, e das palavras do meu bramido?

2 Deus meu, eu clamo de dia, porém tu não me ouves; também de noite, mas não acho sossego.

3 Contudo tu és santo, entronizado sobre os louvores de Israel.

4 Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste.

5 A ti clamaram, e foram salvos; em ti confiaram, e não foram confundidos.

6 Mas eu sou verme, e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.

7 Todos os que me vêem zombam de mim, arreganham os beiços e meneiam a cabeça, dizendo:

8 Confiou no Senhor; que ele o livre; que ele o salve, pois que nele tem prazer.

9 Mas tu és o que me tiraste da madre; o que me preservaste, estando eu ainda aos seios de minha mãe.

10 Nos teus braços fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe.

11 Não te alongues de mim, pois a angústia está perto, e não há quem acuda.

12 Muitos touros me cercam; fortes touros de Basã me rodeiam.

13 Abrem contra mim sua boca, como um leão que despedaça e que ruge.

14 Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas.

15 A minha força secou-se como um caco e a língua se me pega ao paladar; tu me puseste no pó da morte.

16 Pois cães me rodeiam; um ajuntamento de malfeitores me cerca; transpassaram-me as mãos e os pés.

17 Posso contar todos os meus ossos. Eles me olham e ficam a mirar-me.

18 Repartem entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançam sortes.

19 Mas tu, Senhor, não te alongues de mim; força minha, apressa-te em socorrer-me.

20 Livra-me da espada, e a minha vida do poder do cão.

21 Salva-me da boca do leão, sim, livra-me dos chifres do boi selvagem.

22 Então anunciarei o teu nome aos meus irmãos; louvar-te-ei no meio da congregação.

23 Vós, que temeis ao Senhor, louvai-o; todos vós, filhos de Jacó, glorificai-o; temei-o todos vós, descendência de Israel.

24 Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem dele escondeu o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu.

25 De ti vem o meu louvor na grande congregação; pagarei os meus votos perante os que o temem.

26 Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao Senhor os que o buscam. Que o vosso coração viva eternamente!

27 Todos os limites da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor, e diante dele adorarão todas as famílias das nações.

28 Porque o domínio é do Senhor, e ele reina sobre as nações.

29 Todos os grandes da terra comerão e adorarão, e todos os que descem ao pó se prostrarão perante ele, os que não podem reter a sua vida.

30 A posteridade o servirá; falar-se-á do Senhor à geração vindoura.

31 Chegarão e anunciarão a justiça dele; a um povo que há de nascer contarão o que ele fez.

29.5.07

Eu fiz a generosa
Eu fiz a louca
Eu fiz a santa
Eu fiz a tola
Eu fiz a surda
Eu fiz a triste
Eu fiz a dócil
Eu fiz a boa
Eu fiz a bonita,
E a apaixonada.

Eu fiz tudo errado.
O Pacto

Nos enganamos impunemente,
Fugimos pela estrada nevada:
Derrapa muito, e é muito perigoso.
Vencemos cada curva como se fosse a última.
Chegamos à costa,
Ainda fazia muito frio
E os meus lábios estavam muito feridos.

Não achamos consolo no mar,
Só o vento frio e salgado
Que aumentou o estrago
e enferrujou as fechaduras das portas.
Ficamos presos num quarto,
Por noites a fim ouvimos
os cascos reluzentes de um cavalo.

Novamente fugimos, impunes,
A neve havia derretido.
Chapinhando pela lama
Renovamos nossos votos
E fizemos promessas sinceras.
Mais nenhuma palavra foi dita.

28.5.07

O povo que não recebeu o memorando.

Existem algumas pessoas em certos cargos ou profissões que, aparentemente, faltaram no primeiro dia de trabalho, ou não receberam o memorando que apresentava a elas os deveres e a idéia geral por trás do que elas estão fazendo. Essas pessoas não são necessariamente maus empregados, eles simplesmente não entenderam.


Porteiroso cara do prédio da minha mãe acaba comigo. Ele está lá há alguns meses, e ainda não entendeu. Na verdade, eu suspeito que ele tenha escolhido a carreira errada. O sujeito fica lá, sentado entre o portão e a porta. Ele arrastou uma cadeira para segurar a porta inclusive, que é pra ele não ter que abrir ela e se focar inteiramente no portão. Sem problemas, eu não sou uma pessoa que escolhe a estética contra a praticidade. Eu não sei o que está acontecendo com aquele cara: vai ver ele e está fazendo algum treinamento telepático, está tentando aprender a abrir o portão com o poder do pensamento. O fato é que ele nunca, jamais, se levanta para abri-lo. E esse não é um desses portões eletrônicos, controle remoto. Alguém realmente precisa enfiar uma chave, girar e puxar. Ele não se comove com o fato de você estar carregando três sacos de supermercado, ou uma bicicleta. O homem está lá, tal qual uma montanha, irremovível, encarando o portão. Eu acho que ele nasceu pra ser recepcionista de elevador. Está na cara. Ele tentou a coisa mais perto que tinha, porteiro, mas tem essa inconveniência de ter que se levantar. Mas nada disso vai impedir que ele viva o seu sonho de ser recepcionista. A fé pode até mover montanhas, mas não move aquele homem.

Seguranças O sujeito contrata o segurança. Diz pra ele “O negócio é o seguinte, Átila, você tem que manter tudo por aqui em paz, não deixar ninguém incomodar ninguém, evitar que as pessoas se batam.”. É isso aí. E eu imagino que, em um dia particularmente pacífico, o trabalho de Átila seja meio frustrante. Afinal de contas, se a paz reina sem a sua interferência, ele realmente não está fazendo o trabalho dele. Então o que ele faz? Ele cria uma situação em que os seus dotes físicos sejam necessários. Ele compra uma briga. O que Átila não entendeu foi o conceito de só fazer alguma coisa quando alguma coisa for necessária. Ele não entendeu que se está tudo bem, ele realmente não deve fazer nada, apenas estar preparado para alguma eventualidade mais violenta – que essa também é uma forma de estar cumprindo com as suas obrigações. Ele é o oposto do porteiro da casa da minha mãe – ele não é um empregado ruim, ele dedicado demais.

Taxistas:

Eu: Boa tarde...Eu vou lá pra Lagoa, mmm..Como é que eu vou te explicar? O senhor sabe onde fica o CAP?

Ele: O CAP? Claro, claro.

Eu: Ótimo, eu vou para um prédio do lado do CAP.

Ele: Tem uma Igreja ali perto, né?

Eu: É, tem sim.


(Começamos a rodar – eu estou ouvindo o meu Ipod e não estou prestando muita atenção. O carro para. Eu olho pra fora e vejo o prédio da Obra do Berço.)

Ele: Chegamos. Deu onze reais.

(Eu olho pra fora com um olhar de que porra é essa. Eu olho o prédio da Obra do Berço, eu penso nas iniciais. ODB. Eu queria ir pro CAP. Eu repasso a conversa que eu tive com o meu amigo ali. Sim, eu tenho certeza que eu pedi pra ir pro CAP.)

Eu: Chefe, isso daqui não é o CAP. É a Obra do Berço.

Ele: Como assim? Aqui é o CAP. Olha a igreja ali.

Eu: Não. O CAP é uma escola. Isso daqui não é uma escola. Isso daqui é a Obra do Berço. Na verdade, está longe do CAP.

Ele: Minha senhora, não é minha culpa. Você não me deu um endereço, como é que você quer que eu te leve para algum lugar se eu não tenho um endereço?

Eu: Meu amigo, eu entro aqui... Eu te pergunto: você sabe onde é o CAP? Você me diz que SIM. A partir daí eu estou ACHANDO que você SABE pra onde você está indo.

Ele: Olha só, eu não tenho obrigação de saber onde é que fica o CAP.

Eu: MEU AMIGO, é CLARO que você não têm obrigação de saber onde fica o CAP, mas você tem a OBRIGAÇÃO de admitir se você não sabe onde é, JUSTAMENTE por que saber onde é NÃO é sua obrigação, entendeu?

Ele: Mas ta aí a igreja.

Eu: Nós estamos no maior país católico do mundo, porra! Tem uma igreja em TODA esquina!

(Eu dou o endereço pro maluco. Voltamos a ir, dessa vez, na direção certa)

Ele: A senhora pode ficar achando que eu sou desonesto. Só por que você não me deu o endereço eu agora passo por safado.

Eu: Me desculpa, mas puta que o pariu, meu amigo. Você não pode e não vai me culpar por você não saber onde é o CAP e DIZER que sabe. Tu diz que sabe, eu acredito. Se você fosse honesto, no mais verdadeiro sentido dessa palavra, você teria admitido a sua ignorância.

Ele: A senhora ta me chamando de ignorante?????

Eu: *suspiro* - Não, cara, não.

(Chegamos depois de um silêncio eterno)

Ele: Dezesseis reais. (o filho da puta não me deu nem um desconto)

Eu: Olha só, meu amigo, para futura referência, quando tu não souber onde fica um lugar, DIGA, cacete, DIGA, peça um endereço se tu não conhece a referência dada, tá bom??? Cacete. E, por falar nisso, ALI A IGREJA , Ó!

(saio, bato a porta).

21.5.07

Wishlist

Meu aniversário tá chegando. Dia dois de junho.

- Garrafa de Jack Daniels

- Câmera Digital

- Tinta Acrílica (cores primárias)

- Livros (poesia, clássicos)

- Kit Casa Cruz – (Canetas coloridas, carvão, diversas variedades de lápis, borracha, apontador, papéis)

- Calcinhas (que não entrem na bunda, mas sem ser de velha)

- Uma passagem para um vôo internacional

- Poemas, canções, cartas de no mínimo duas páginas.

- A presença dos que eu amo, a presença dos que me amam.

20.5.07

Aqui no trópico de câncer

O câncer se espalha.
Começou no coração...
Agora comprometemos os rins.
O retorno ao trópico de câncer


"There's some sweetness to it, you'll see. You may get a better glimpse of my eyes and my breasts as I lay my cards on the table. "

eu não quero mais esconder nada de você - dá muito trabalho, um labouro solitário que ocupa horas em que eu deveria estar dormindo. E não há felicidade aqui, existe a alegria sublime da aceitação dos fatos. E os fatos são confusos e antagônicos, mas eu os aceito. Tomara que eles me aceitem também. Aceite também, se mais cedo ou mais tarde (você diz) você vai aceitar, que não seja mais tarde.

17.5.07

Enquanto isso, no jardim da flor fatal....

Vamos desligar os
aparelhos dos ou-
tros doentes e, en-
quanto a morte se
ocupa deles, nós
poderemos fugir.
----------------------

Nossos olhos são mais apurados,
eles te enxergarão. Nossas arma-
dilhas são mais certeiras - elas te
prenderão. Nossos cães são mais
ferozes - eles te alcançarão. Nos-
sas facas são mais afiadas - elas
te cortarão. Nossas leis são mais
severas - elas te julgarão. Nossa
justiça é mais cega - ela te casti-
gará. Nós estamos muito longe
de Deus, amiguinho.
ELE NÃO
TE SALVARÁ. Em resumo,
filhote, você,
ESTÁ BEM FODIDO.
-------------------------------------------

Truth loves Him,
it doesn't love you.
Beauty chose Him,
It scorned you.
This is His law,
This is His realm.
There ain't no
suggestion box.
So you might as
well get used to it,
babe.
Get used to it.
------------------

Você não morreu
pela beleza, você
se matou por
uma miragem.
---------------------

Aqui vivem os suicidas que não conseguiram
morrer, por aqui estão as crianças desapare-
cidas, aqui moram todos os animais de sangue
quente que querem se vingar de Deus. A flor
talvez não te pegue, mas alguma coisa irá. Os
elefantes brancos e os amantes de coração
partido vêm aqui para morrer.
---------------------------------------------------

Eu já fui essa que vos fala
mas ela se descartou em
algum beco, ela era má e
cismou em amar o homem
errado, ela chora ouvindo
Roberto Carlos, ela é uma
manteiga derretida que
chora assistindo anúncio
de margarina.
-------------------------------

As you can see
This is a beautiful place.
But it's what
you can't see
that will bring
death to you.
-------------------------------

Esse é o lugar das coisas
que podem te matar.
------------------------------





11.5.07

De um caderno para um quadro, de um quadro para aqui.

-----------------------
Esse é o inferno
Das mulheres que
Amam o homem
errado, que foram
abandonadas no
leito frio a manhã,
que choraram até
a hora do café e que
nem por isso,
deixaram de amar.
------------------------- ------------

Esse é o inferno de uma mulher
Que permanecerá desconhecida
Seu corpo nunca foi encontrado.

---------------------------------------

Esse é o inferno de

José de Calazans Fer-
nandes, que em uma
cidade citiada por
Lampião, viu a sua
filha morrer.

------------------------------ - -----
Esse é o inferno dos homens que
Só tarde demais, perceberam ter
sido elegidos pelo amor. Amargu-
rados, eles penduraram seus es-
cudos e depuseram suas armas e
resignaram seus tronos de gue-
rreiros e pagaram o dote da solidão.

----------------------------------------
Esse é o inferno da mulher que
ficou amarga, a vizinha mal a-
mada que enloquece dia a dia
com uma goteira que só ela po-
de ouvir, e morre de um câncer
Diagnosticado por ela mesma,
cheirando éter, injetando mor-
fina, alucinando que as cortinas
estão em chamas, fumando um
cigarro atrás do outro numa bo-
lha refrigerada, numa sala cheia
de gatos empalhados, sem jamais
ouvir à campainha que toca, toca.
-----------------------------------------

Esse é o meu inferno, ele
tem o nome de um homem.
Eu vim de uma paraíso que
tinha o mesmo nome.
-----------------------------------------
Esse é o
Inferno
De uma
Mulher
Comprou
Enxoval
Perdeu
O bebê.
--------------------------------------------------------------------------
Esse é o inferno de M., que treme enquanto assite o soro pingar
lentamente - ele pede que eu diminua o ar-condicionado. Reflu-
xo no soro - o tubo se enche de vermelho. Eu imploro para que
ele pare quieto. Ele me olha profundamente, os olhos cercados
por círculos marrons arroxeados: "Eu sinto muito frio." Mas não
é só frio que M. sente - é náusea constante, cólicas e enxaquecas
épicas. Ele geme, M. geme: "Eu estou morrendo de frio". Mas não
é de frio que M. morre, ele está cansado de saber que é de câncer.
-----------------------------------------------------------------------------
Esse é o inferno
De R. - esse infer-
fede a porra e su-
or de homens ve-
lhos e gordos, que
tem sempre sob as
unhas uma sujeira
sob a forma de uma
nojenta pasta negra.
Alguns deles choram
depois de comer R, e R
se sente na obrigação
de consolar. Não por
que ele ache que o
dinheiro vindo daque-
las mãos sujas valha a
sua compreensão - R
consola simplesmente
porque tem um bom co-
ração que entende
o que é ser triste.
---------------------------------

7.5.07

Caros leitores,

se vocês se derem ao trabalho de descer até o fim dessa página, verão um intrigante retângulo branco. Pois é, eu descobri um jeito de por um Mp3 player aqui. Ali vocês encontrarão todas as músicas do meu disco (na pasta Flor Indócil) e playlists contendo músicas sobre as quais eu escrevi em Suffle 3 & Shuffle 4. Bacana pacas, né? Super transadinho!

By the by, se ninguém fizer qualquer comentário em qualquer joça nas próximas 72 horas eu não mais irei me referenciar a vocês como "Caros Leitores", e sim como "Bando de Mocorongos". Estejam avisados.

toda cagada de tinta acrílica,
J.

5.5.07

5/5/2001


Pontiac Stage

May 5, 2001



  1. Oh Babe, It Ain't No Lie (acoustic)
  2. Mr. Tambourine Man (acoustic) (Bob on harp)
  3. Masters Of War (acoustic) (Charlie on dobro)
  4. Tangled Up In Blue (acoustic)
  5. This World Can't Stand Long(acoustic) (Larry on mandolin)
  6. Down In The Flood
  7. Positively 4th Street
  8. Stuck Inside Of Mobile With The memphis Blues Again (Larry on acoustic guitar)
  9. Where Teardrops Fall (Larry on pedal steel)
  10. The Wicked Messenger (Bob on harp)
  11. Rainy Day Women #12 & 35 (Larry on steel guitar)

    (encore)

  12. Things Have Changed
  13. Like A Rolling Stone
  14. Knockin' On Heaven's Door (acoustic) (Charlie on electric guitar)
  15. Highway 61 Revisited

Eu estava me apaixonando por um homem, vendo outro que fez eu me apaixonar pela música e conhecendo pessoas que mudaram a minha vida para sempre de forma definitiva. Eu me derramo em prosa e verso aqui, mas disso eu não vou falar: talvez por que é pessoal demais, ou talvez, por ser pessoal demais, eu acho que nem vale a pena tentar explicar. Mas no dia 5 de maio de 2001 eu fui mais feliz que em qualquer outro tempo ou lugar.


"I married Isis on the 5th day of may..."

4.5.07


My Own Personal Hell


Esse é o meu inferno, ele
tem o nome de um homem.
Eu vim de um Paraíso
Que tinha o mesmo nome.
Frases Maravilhosas - Parque Lage

Faço aula no Parque Lage (Pintura I) há muitos anos. A minha turma é, sem sombra de dúvidas, a mais anárquica e divertida de toda a Escola de Artes Visuais. E muitas coisas hilárias e maravilhosas são ditas. Essas são só algumas da última aula:


"A pintura não morreu, mas a gente tá passando um pouco mal." - J.M, pintor e professor, em uma discussão seríssima sobre a morte da pintura.

"Vocês tem um professor megalomaníaco e outro egocêntrico. Cês tão fodidos." - W.G, ou outro professor.

"O que que é autorama?" - J.M que, aparentemente, não teve infância.

"Ah, meu filho, cê tá cutucando urso com palito." -
Eu, alertando J.M

"Aqui J., fala do seu trabalho." - W.G, botando um rolo de fita adesiva em frente à J.M

"Não falo! Não falo!"
- J.M, se recusando a decorrer sobre o rolo de fita adesiva.



30.4.07

Meu Bisavô - José de Calazans Fernandes


Jornal O Globo


EDIÇÃO DO DIA 30.04.2007

SEGUNDO CADERNO

HÁ 50 ANOS - Página 7


Onde o rádio do prefeito é a diversão


"NÃO VEJO glória nenhuma em ser o representante do município mais pobre do Brasil, mas vim ostentar esse título para ver se consigo livrar minha terra dessa incômoda evidência nas estatísticas" disse à reportagem o Sr. José de Calazans Fernandez, prefeito de Marcelino Vieira, no extremo oeste do Rio Grande do Norte, e que veio participar do IV Congresso de Municípios,
ora reunido no Rio de Janeiro.

O Sr. José Calazans teve de viajar 60 léguas por estradas carroçáveis e mais dois mil quilômetros de avião para chegar até aqui. Mas acha que vale a pena, pelo bem de sua terra.

"Marcelino Vieira não tem luz, água, esgotos, hospitais, escolas, diz o seu prefeito. "A arrecadação nunca passa dos 200 mil cruzeiros por ano. Sem estradas, vamos à capital do estado por caminhos carroçáveis (60 léguas)."

Nunca se alcança Natal com menos de três dias de viagem. Pobre de quem adoecer em Marcelino Vieira. Segundo narra o seu prefeito, o doente pode não morrer da própria doença, mas morrerá fatalmente em conseqüência da longa viagem que terá de fazer em lombo de burro para chegar ao hospital mais próximo: em Mossoró, distante 30 léguas. Se preferir ir a Pau dos Ferros sede da freguesia, onde reside o único médico da região ‹ terá de vencer 30
quilômetros de caminhos ruins.

"Na minha terra costuma-se dizer que ali é proibido adoecer ou morrer" afirma o prefeito.

A única diversão para os 1.050 habitantes de Marcelino Vieira é o rádio, único do município, existente na casa do prefeito.

Nos sítios circunvizinhos há cinco mil pessoas que vivem da cultura de feijão, milho, algodão, arroz, cana-de-açúcar e outros produtos, em pequena quantidade.

A cidade tem três sapatarias, 20 mercearias, duas padarias, um curtume. Mais nada.

-----------------------------------------------------------------------------------------------

Meu bisavô abria as portas e as janelas para que o povo, que se apinhava lá fora, pudesse ouvir e "ver" o rádio. Ele se sentava numa cadeira ao lado do aparelho, vestindo suas melhores roupas e não dizia nada. Ligava o aparelho e o desligava. O povo, quieto, prestava atenção da voz que vinha da caixa.

Minha avó foi a Marcelino Viera esse ano e levou um susto - agora a cidade tem duas Igrejas!

J.

28.4.07

Declarações Maravilhosas Feitas Por Gentes Bonitas

Durante as efemérides do aniversário da aditivada Lívia Moura. Parabéns, Lili, te quiero!

1- "Johnny Cash e Chuck Norris é que são homens, meu filho, o resto é tudo moleque!" - Yours Truly, debatendo com F. sobre a virilidade do senhor Carter Cash.

2- "É difícil não fazer a piada fácil." - F., que compartilha o meu senso de humor e a apreciação do cretino.


Shuffle 4

1-
Take This Longing – Leonard Cohen

“Just take this longing from my tongue
all the lonely things my hands have done.
Let me see your beauty broken down

like you would do for one your love.”

Não quero que você vele o meu sono, quero que você vele a minha febre e as minhas noites em claro. Isso não é para os fracos, para os de estômago sensível. Você desmaia quando vê sangue?

No saguão do aeroporto você constantemente levava as mãos ao nariz e aspirava algum perfume misterioso. E, lá pelas tantas, quando eu já pensava em chorar, você me disse, você assumiu que o perfume misterioso era o meu, o cheiro de onde a sua mão havia estado em mim. E você, mais uma vez aspirando o meu cheiro, disse que nunca mais ia lavar as mãos. Se eu achava aquilo nojento? Claro que não, meu amor, claro que não. Você não sabe, mas eu roubei uma camisa sua, uma camisa muito suja, uma camisa manchada por aqueles dias. Até hoje o seu cheiro me estupra no ônibus, vindo do corpo de estranhos. E eu fico muito triste, my love, eu fico inconsolavelmente triste.


2- Na Batucada da Vida - Carmem Miranda

“E hoje que eu sou mesmo da virada
E que eu não tenho nada, nada
Que por Deus fui esquecida
Irei cada vez mais me esmolambado
Seguirei sempre cantando

na batucada da vida"


Se descer mais uma, ela desce até o chão. Na verdade nem precisa, essa menina é perdida, perdidinha. Era louca, louca, louquinha. Sonhos muito grandes para um corpo tão pequeno, talvez ela acabe que nem aquela sua ex-namorada que agora vive, deprimida e feia, atrás de um balcão de algum estabelecimento comercial que vive na margem entre a falência e o lucro - Coitada, nem pra ter um quarentão boa praça que banque as suas estripulias!



3- Los Hermanos – Mercedes Sosa


"Y asi seguimos, andando,
Curtidos de soledad,
Nos perdemos por el mundo,
Nos volvemos a encontrar"

A geografia mesquinha dos homens separa, mas não distância. O cinismo amarelou seus dentes e os anos alargaram os corpos – se encontraram em um lugar onde antes existia o bar onde se conheceram – e agora existia uma loja de sucos. E ali, sob o néon e entre as frutas da estação, ocorreu a reunião de uma confraria de dois cavalheiros um pouco menos solitários.

Abençoado é aquele que encontra a fortuna de muitos amigos. Verdade seja o que te digo: o seu fardo é só seu e, nos julgamentos, se fica sozinho e nu frente ao júri. Nenhum irmão pode ficar ao seu lado. Amigos não carregam nosso fardo, mas eles o fazem parecer mais leve. Compatriotas de um mesmo continente ainda não descoberto.


4- Sou Uma Criança não entendo nada - Erasmo Carlos

“Antigamente quando eu me excedia
Ou fazia alguma coisa errada,
Naturalmente minha mãe dizia:
“Ele é uma criança, não entende nada.”
Por dentro eu ria satisfeito e mudo –
Eu era um homem e entendia tudo.”

Quando eu era criança achava que eu podia nadar até às Cagarras. Antes eu achava que as ilhas eram dorsos de enormes monstros marinhos que eu via quando pegávamos a estrada sobre o mar até a Barra da Tijuca. Era medo e fascinação no banco de trás, enquanto eu imaginava que o carro poderia despencar e cair lá em baixo. Gostava de brincar com as garrafas de xampu e pentes da minha mãe. No banho, fingia que eles eram enormes monstros marinhos. Não gostava de bonecas – só de uma. O nome dela era “Pastel”, que era como o meu professor de natação nos chamava quando a gente desobedecia. O nome do professor era Canete. A gente chamava ele de Danete. A minha babá arrastava mó asa pra cima dele.


5-
Miss Being Mrs – Loretta Lynn

“I took of my wedding band
And put it on my right hand
I miss being Mrs. tonight”

Guardou o anel dourado na gaveta entre as calcinhas, onde guardava todos os seus pertences de teor confidencial. Mas não era do mundo que ela escondia a aliança, era daquela solidão inútil que ela combatia com umas duas taças de vinho branco e, principalmente, do arrependimento que vinha depois da quinta taça.

Decidiu empenhar o anel, mas adiava sempre. Um dia o vestiu na mão direita e foi até o centro, resoluta. Pagou contas, comprou um vestido novo. Foi só no fim do dia, quando estava prestes a cair no sono, que reparou que se esquecera e que o círculo de ouro ainda se agarrava confortavelmente à sua mão direita. Resolveu deixa-lo lá.


6-
Duas Horas Da Manhã – Paulinho da Viola

Duas horas da manhã
Contrariado espero pelo meu amor
Vou subindo o morro sem alegria,
Esperando que amanheça o dia.”

Depois que escurece a cor do céu não muda até começar a clarear. Eu não vejo nada que indique a diferença entre as onze horas da noite e às três da manhã.

Aqui a noite não faz o céu negro. Não, aqui na cidade o céu fica desbotado, encardido pelas luzes que nunca apagam, pelos faróis, néons, placas, idéias brilhantes de homens insones que nadam, nadam e morrem na praia do Diabo.

A lua se move, mas não me guia. Eu não vejo sequer uma estrela – não há sinal do cruzeiro do sul daqui, enquanto eu subo por essas ruas, todas sem saída. Eu não sou de escorpião ou da balança, eu sou de Ursa Maior. Somos uma gente abandonada de trejeitos tristes.


26.4.07

Just Like Rimbaud



I chew rocks and gravel,

Cry and foam for rabid loves,

just like Rimbaud.
I wear my innocence out,
On orgies and bitter faces -
Like Rimbaud.

A cannon forgotten on the moonlight
On the ruins of a greek temple.
You are the son of the hangman,
You are the serpent enchanter;
You dive your fingers into the chalice,
Just like Rimbaud

In your absence I'll trow the tarot,
Like Rimbaud
What shall reveal me the chinese deck? -
In your abscence.
Bring me pears, tea and porcelain alligators
From your absence.
Bring me your locked up love
From your absence.

I see in your white shirt
Sprinkles of your muse's vomit;

I guess that's why
You used to dress in black,
Just like Johnny Cash,
Just like Johnny Cash.

24.4.07

Como eu não sei tricotar só me resta esperar Ulisses.

21.4.07

Shuffle 3

1-
Lady D’Arbanville - Yusulf Islam

My lady d’arbanville why does it grieve me so?
But your heart seems so silent.
Why do you breathe so low, why do you breathe so low?”

Eu tenho um sorriso branco para os seus olhos escuros, eu tenho mãos delicadas para a sua fronte rude. Um beijo ébrio para os seus lábios mouros. Eu tenho muitas coisas pra você, algumas eu devo devolver, todas aquelas coisas que você me fez querer. Eu tenho um véu para ser erguido. Um corvo vai trazer a noite em seu bico, tão negra quanto suas asas, tão negra quanto os seus olhos; insondável. Sou guiada por calor, como os animais sanguessugas, sou guiada pelo seu pulsar morno, guiada pelo pulso, pelas suas mãos mouras, rudes e escuras.


2- Tigresa – Secos e Molhados

“Enquanto os pelos dessa deusa
Tremem ao vento ateu,
Ela me conta, sem certezas,
Tudo que viveu”

Ela sorve um cigarro e fuma o whisky; me diz que esses truques baratos vão lhe custar muito caro, que um dia vão bater na porta desse apartamentozinho deprimente para cobrar o peso do seu coração em ouro, ouro que ela não tem. Mas me conta dos dias em que era bela, quando estava na crista da onda, por cima da carne seca, acima do trópico de câncer. Foi à Londres, Helsinki, Paris, Madri. Não gostou de Veneza. “Aquela água toda é esgoto! É esgoto e fede que nem esgoto, e esgoto é esgoto, seja cercado por arquitetura renascentista ou por cabeças de porco. Você não acha?” E quem disse que eu tenho direito à opinião?


1-
Todo menino é um rei – Roberto Ribeiro

“Nos meus tempos de menino...
Porém meninos sonham demais,
Meninos sonham com coisas
Que a gente cresce e não vê jamais.”

Ele vestia as sandálias de tira de couro brancas, encardidas. Apesar de gostar da praça, o trepa-trepa, o balanço, a gangorra, detestava aquelas pedrinhas ásperas e rudes que se enfiavam entre seus dedinhos expostos pelas sandalinhas franciscanas. Quando anunciavam, pela manhã, que a babá o levaria a pracinha, era dividido pela alegria e a antecipação do incomodo das pedrinhas. Uma vez pões os sapatos, mas as pedrinhas deram um jeito de entrar lá também (ele tinha certeza que foi na hora que ele brecou o balanço). Durante aquela visita em que calçou sapatos, fez a babá os tirar e botar três vezes, para remover pedrinhas. Ela não gostou daquela função, não deixou mais que botasse os sapatos para a pracinha.

Se aproximou dos pombos, e ela os amaldiçoou berrando algo sobre ratos com asa. Não entendeu, mas achou muita graça.


5- Atrevida – Marcinho & Goro

“Já arranhada você vai pra casa,
Descabelada procura dormir,
Mas no outro dia surgem os reclames
De mais um vexame que passou ali”

A campainha rompeu o silêncio de uma noite que era pacífica. Ele tropeçou da cama, foi em direção ao quarto da mãe e a acalmou com um gesto despreocupado. Andou até o portão e a viu lá, apoiada contra a grade, um cigarro em punho, os cabelo revoltos e o rosto ferido que não mostrava sinal de dor.

“O que você quer?”

“Eu estava aqui perto.”

“E isso te dá direito de tocar na casa dos outros há essa hora? O que aconteceu com você?”

“Você conhece uma Flávia?”

“Flavinha? Filha do Carlinho?”

“Ela mermo. Ficou toda marrenta pra cima de mim, aí eu dei um trato nela.”

Ele suspirou. Esfregou o rosto amarrotado.

“O que você quer?”

“Nada, eu já disse, eu tava aqui perto. Posso entrar?”

“Não, cê vai acabar acordando a minha mãe.”

“Você não me ama mais.”

“Amo sim...”

Ela fez cara de choro.

“Tá bom, tá bom...entra.”

“Eu prometo que não dou escândalo...”

Ele suspirou. Abriu o portão. Treparam em silêncio.


6- The Gringo’s Tale – Steve Earle

“Well I come from West Colorado
And I’ve wandered this world far and wide
I’ve lived for some years in the shadows
And my eyes are unused to this light
If you buy me a strong drink of whiskey
I will tell you the tale of my life
It’s long and it’s sad but it fits me
And it may bring a tear to your eye”

A voz era árida, era entrecortada pela respiração brusca. Se areia falasse, falaria que nem aquele homem. Essas aroeiras magras que nos cercam são as lápides de muitos homens que passaram anos revirando pedras e mastigando cascalho. E ele enterrou muitos desses homens. Antes de crescer já tinha aprendido que, nesse mundo cão, o negócio é matar ou morrer. E ele levou a sério.

Ele passava tardes inteiras olhando para o rio. Olhava o rio, mas não tinha os olhos de quem olhava para um rio. E eu soube por que, eu soube por que um estranho me disse. Há muitos anos atrás um Coronel assassinou seus pais. E ele enterrou os pais no leito do rio, que naqueles tempos estava seco há muitos anos. Mas construíram a barragem, e quando construíram a barragem a água cobriu o leito do rio seco, cobriu os ossos e os trapos de chita, cobriu cabelos e cílios.

Ele partiu pouco tempo depois. Deixou uma trilha de poeira, que só homens muito bravos ousariam seguir. Mas não existem mais homens assim, pelo menos não por aqui. Aqui o leão do norte segue em paz e descansa sob a sombra das aroeiras tortas, sem saber se vai acordar.