18.12.07

Beautiful Texugo


Queria não me enxergar
Nos seus olhos,
Vê-los pelo que são,
Catalogar as cores,
(dar-lhes nomes)
Tons, semitons, entre tons.

All I see is the look of love
Looking back at
me.

Beautiful texugo,
O triste negar do olhar,
Mapear a constelação
De acidentes nas suas costas,
Ligar pontos, beautiful texugo.

All I see is the look of love
Looking back at
me.

O soluço infantil ao telefone,
Belíssimo espécime.
A dor aceita e partilhada -
Pão de sal, pão de sal, pão de sal.
Belo Badger, Belo Badger,
Não faz mal, não faz mal.

Eu dei sorte, eu fiz
As escolhas erradas.
Tudo para me trazer aqui
E ser feliz aqui,
E ficar aqui,
Ficar aqui.

All I see is the look of love
Staring back at
me.

Eu tive a grande sacada,
Olhei pela janela
E estudei, lentamente,
A engenharia dos seus desejos.
Tudo para construir
A ponte perfeita entre corpos,
A ponte perfeita
Da doçura que vale a pena
A doce justificativa
De todos os clichês.

Beautiful Texugo, Belo Badger,
Eu dei a sorte de te querer.

19.11.07

Exílio

Existe algo de triste e confortável na constelação de coisinhas que eu faço acontecer no tédio que antecede a chegada do sono. Eu como alguma coisa, eu assisto televisão para não pensar em nenhuma de todas as coisas em que eu tenho que pensar. Sinto desejo de fumar um charuto. Toco violão. Leio um pouco. Me forço a escrever.

Hoje é dia 15 de novembro, penso no desgosto de Pedro D’Alcântara, prestes a embarcar para o exílio. No espaço entre as estrelas da minha constelação de coisinhas a palavra “exílio” respira. Ela me persegue, faz algumas semanas, com as palmeiras e os sabiás daquele poema que o meu pai me leu na mesa de um restaurante, já fazem muitos anos. Gonçalves Dias tem a história mais triste: Morreu no naufrágio do barco que o trazia de volta à pátria.

Eu nego o nome da minha solidão. Dou-lhe novas alcunhas: “descanso”, “tédio”, “fracasso”. Não quero sair e encarar o mundo nesse dia chuvoso, porém tão pouco quero ficar só. Quero que o mundo todo venha para onde já estou, silencioso, calmo, respeitoso. Quero alguém que vele o meu sono. A voluntariedade do meu exílio não nega o seu significado. A minha vontade de ser só não nega a minha solidão. Eu nego e pago, cabeça erguida e olhos baixos, eu nego e pago.

Esquecer é preciso.

Esquecer é impossível.
Como esquecer a pessoa amada em 5 minutos

“Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido” – Pablo Neruda

Idéia para performance - e idéias em geral.

Esse não é exatamente o exercício do esquecimento – está mais para o exercício do desapego. O esquecimento nada é além da mais extrema forma de desapego, o desapegar-se das próprias memórias. É o agonizante construir da ponte que te leva à outra margem desconhecida.

Esquecer é preciso, esquecer é impossível. Podemos, no máximo, deixar para trás, abandonar. Você pode se convencer da necessidade básica de deixar algo para trás, porém esquecer está além do seu alcance. Você pode apenas não pegar o telefone, não olhar as fotos, não ouvir a canção.

Mas eu ouço uma canção agora, uma canção para mim nova – “Donde Habita El Olvido”, de Joaquín Sabina. Não me interessa tanto saber onde mora o esquecimento (no fundo da garrafa? Na gaveta para a qual se perdeu a chave?), mas qual o caminho mais curto para se chegar lá.

Em um poste, sob o resultado do jogo do bicho, eu vejo um cartaz que promete: “Trago a Pessoa Amada Em 4 Dias”. A promessa está espalhada por toda a cidade. Às vezes é entregue em mãos, às vezes pintada em muros. Já fiquei tentada a procurar uma das mães-de-santo autoras da expectativa de dádiva. Nunca fui, pois meu desejo não era o recomeço, e sim a obliteração de um sentimento ligado a uma pessoa. A possibilidade de redirecionar o amor; dar-lhe outros olhos, outros lábios, outro corpo. O desejo de não desejar talvez seja o mais impotente e aflitivo de todos os desejos.

E talvez a feitiçaria seja a solução. O encanto para quebrar o encanto, um despacho para despachar um sentimento. Crio o meu ritual – é uma espécie de “macumba”, um tipo de sangria, expurgamento com método e finalidade – eu sei exatamente o que eu quero tirar de mim. Não gosto de usar a palavra catarse - talvez por mera implicância (tantas performances se dizem catárticas), mas também pelo fato do meu feitiço ser muito específico, muito bem planejado.

A performance acontece em uma encruzilhada pela força mística desse tipo de lugar – e uma referência aos despachos de Umbanda, que são uma forma de feitiçaria viva nas ruas e no imaginário popular. Penso em Robert Johnson, que vendeu a alma em uma encruzilhada. Me parece um lugar perigoso.

A bandeja prateada é, para mim, uma referência à princesa Salomé, que matou o que ela desejava por não poder possuí-lo. Os objetos que são, um de cada vez, depositados sobre ela, tem significados pessoais, mas relacionáveis – o buquê de rosas vermelhas (o presente do amante), as cartas de amor rasgadas (ridículas, como todas as cartas de amor), fotografias (a alma roubada), um chumaço das pontas do meu cabelo (jogar fora as pontas mortas), sangue (que eu pensei em derramar por desespero). Ex-votos do desejo de não mais desejar. Sobre tudo isso será derramado um vidro de perfume, que será o combustível para as chamas que irão consumar os objetos e, metaforicamente, purgar o sentimento.

Previamente a realização da performance, serão distribuídas filipetas que anunciaram o local e a hora do acontecimento. No verso desse panfleto estarão as instruções que devem ser seguidas para a realização do ritual. A minha performance pode ser vista como uma demonstração prática do método, e não só uma manifestação pessoal, pois o fato do ritual seguir uma “receita” prática permite que ele seja executado por outras pessoas, em outros momentos.

A meu ver, a atitude de por em um lugar público algo extremamente privado gera a possibilidade de reconhecimento e validação do sentimento. Vejo a performance como canção, pelas possibilidades de comunicação emotivas que são extremamente poderosas na forma de melodia, ritmo, harmonia e letra. O cantar sobre o que é de si e dos outros para os outros – a consagração da universalidade do sentimento e da arte como veículo da emoção, das coisas que acontecem entre o púbis e a garganta.

4.11.07

Beggars

You should not come here,
you should not be here -
For you chose to come,
and beggars can't be choosers.

You may cry,
you may grovel,crawl,
pleadand and
plea, plea, plea

.He's kind today.
He'll let you choose
What you'll beg for.

25.10.07

Alguém traiu alguém,
um sino tocou porque
alguém traiu alguém
um sino tocou porque

Alguém amou alguém
E alguém precisou morrer.

20.10.07

Hoje, em um bar no Jardim Botânico, eu falei para um amigo estrangeiro sobre as belezas de Manuel Bandeira. Em um afã eu recitei um poema do Bandeira, o único poema que eu sei de cor, "Desencanto":

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

(Manuel Bandeira – A Cinza das Horas – Teresópolis, 1912)

Eu li esse poema pela primeira vez quando eu tinha 12 anos - li no Estrela da Vida Inteira, um livro de capa púrpura que me acompanhou pelo resto da vida. Li, reli e decorei, sem querer, querendo.

Hoje, chegando em casa depois do bar, senti a nostalgia de ler Bandeira. E li Bandeira, e resolvi ler sobre o Bandeira. Não li nada que eu não soubesse, apenas uma coisa - a data de sua morte. Ele morreu 18 de Outubro, ontem. Fiquei meio pasmada, porque é a data do aniversário da minha irmã, e senti novamente o afã que me invadiu na mesa de bar e que me fez ler e reler esse poema.

Quando eu li o poema, aos doze anos de idade, eu começei a escrever. Talvez tenha sido no dia seguinte, talvez nas horas seguintes, talvez uma semana depois. Mas ali eu começei a escrever.

J.

19.10.07

Fidos

A fé é a lâmpada mágica
Que ainda não foi esfregada.

(Se fosse verdade te cegaria
Mas a idéia não é essa.)

De fato tudo
Se resume ao Amem -

Fiat.

"Algum tipo de esperança
Fabricada pelo homem",
Mas se te impede
De por uma bala na cabeça
Está valendo a pena.

3.10.07

Cien Años de Soledad

"Había perdido en la espera la fuerza de los muslos, la dureza de los senos, el hábito de la ternura, pero convervaba intacta la locura del corazón."

Foda, né?

25.9.07

Catumbi

Eu viajo:
malas feitas,
postes passam.
E o doce balanço
da estrada repete:

"O mundo não passa
de um enorme Catumbi".

Em terra estrangeira
conto moedas estranhas
e brigo com o idioma local.
No Hilton de Puerto Madero,
no Red Roof Inn de Memphis,
O Mississippi e o De La Plata
Sussurraram a cantiga -

"O mundo não passa
de um enorme Catumbi".

Em Barbacena
eu estou na fila
para ver uma rosa negra.
Encaro a bichinha
pintada de anilina.
E como um raio
me atinge:

"O mundo não passa
de um enorme Catumbi".

Um dia eu dormi no ônibus,
eu perdi o ponto.
O trocador me sacudiu -
Ponto Final!-

Não deu outra:
Catumbi.

21.9.07

El Califa De Laguahara

O último da triologia em espanhol.

Las fronteras de ese reino
Son dictadas por el viento.
Escorpións descansan
Bajo las piedras.

Una gente nerviosa
De jeribeques* tristes
Camina entre las dunas
Mirando el suelo.

Hacia el este existe
Un bosque de lentiscos** desnudos;
Hasta el oeste
Un pozo dónde las cabras se ahojan.
En direccíon al sur
Un gran faro
Y, al norte,
El mar.

El trono del califa encubre
El inconstante jadear*** del reino.
La gente camina,
El faro brilla,
El mar oscila y canta.

El califa duerme.


_____________________________
*jeribeques - trejeitos
**lentiscos- aroeiras
***jadear - arfar

17.9.07

El Emir Del Bueno Amor

Acho que vou fazer uma triologia de poemas em espanhol só com títulos de autoridades do mundo islãmico. Psicodélico, Borgiano, eu sei, mas eu também li as Mil e Uma Noites.

Entre el desierto
Y el más bello espejismo
Encontrábase el palacio.
Allí él fue bautizado
Y recibió su nuevo nombre
De los labios de una mujer.
(La cortesana de un reino partido)

Lo que él quería saber
No lo fue revelado,
Lo que él quería tener
No podía ser poseído.

Se quedó
Bajo las garras de un tigre:
Un flagelo inútil.
El sol cegó sus ojos,
Las escarpas conspiraban.

14.9.07

Cultura Afro é o Escambau

Eu não costumo escrever textos de não-ficção e, como eu não consigo considerar não-ficção como literatura, eu acabo escrevendo como eu falo.

Cultura Afro é o Escambau

“É mais o povinho...”

A nossa auto-depreciação enquanto povo é tão ridícula que nós queremos dar crédito que é nosso aos outros – eu estou cansada do termo “cultura afro”. Em primeiro lugar porque a África não é um país, e sim um continente, e se referir a ela como uma massa cultural única é, no mínimo, estúpido. De quem estamos falando? Dos negros mulçumanos do Sudão? Dos egípcios? Dos iorubas de Benin e da Nigéria?

Existe um forte movimento hoje de qualificar coisas brasileiras, coisas maravilhosas que pertencem ao nosso povo, como uma representação da cultura africana. Samba não é afro-brasileiro. É brasileiro, ponto, foi feito aqui, não chegou pronto. Muitos dos mesmos povos que desembarcaram no Brasil (todos da costa ocidental da África), também chegaram em outros lugares –Cuba, por exemplo. Lá deu mambo e salsa, aqui deu samba. É lógico que o samba não existiria sem os povos negros, mas também não existiria sem os índios (que recebem tão pouco crédito pela nossa cultura), os portugueses, etc. Será que para valorizar uma cor de pele a gente precisa depreciar uma nação inteira? Porque não se diz simplesmente “cultura brasileira”, o que inclui absolutamente todos nós? Isso é só mais um sintoma da legendária baixa-estima do povo brasileiro – a gente prefere dar crédito a um outro continente do que a nós mesmos (“pra ser bom tem que ter vindo de fora”). E, mais uma vez, a merda da teoria da jabuticaba prevalece.

No Brasil nós estamos tão preocupados em categoricamente “gongar” o nosso patrimônio histórico, que nem paramos para ver o que a gente tem de bom, e como é que isso foi feito. A gente tem que estar aplaudindo Pedro I, que brigou com tudo e todos para ficar aqui, nesse país; mas nós dispensamos esse ato que não demonstra nada além de bravura para acreditar que ele tinha interesses escusos. Nós devíamos estar tirando o chapéu para Pedro II, que sofreu para aprender Guarani. Ele precisava saber guarani? Não. Mas a gente prefere descartar ele como um “banana”. Marechal Rondon é outro. O cara passou a vida inteira tentando estabelecer relações pacíficas com diversas tribos, muitas das quais queriam ver ele escalpelado. Zumbi é outro - um herói brasileiro, não um herói africano. Ele nasceu em Pernambuco, né?

A gente muito que melhorar, mas para melhorar é preciso acreditar nesse país – e acreditar nesse país significa valorizar o que veio antes da gente. E o que está aqui agora também. Quem fala mal de funcionário público? Todo mundo. Quem é aquela gente no INCA, no Itamaraty, na Fundação Oswaldo Cruz? Funcionários públicos. Essa gente dá o exemplo diariamente – e quando você chama a atenção para o bom exemplo ele, muito lentamente, se torna o que é esperado. Enquanto depreciar for mais importante que apreciar, as coisas não melhorarão.



13.9.07

Ghost Buster

Saca só: eu baixei um bagulhinho que deixa eu ver quantas visitas ocorreram no meu blog. Eu sai de casa hoje e tinha 1 (eu mesma), voltei e tinham 6. Cadê essa gente que não se manifesta? Pô, bora dar nome aos bois, pueblo!


4.9.07

El derviche del tesoro triste

Abafando no español...

Bílis espesa
Bílis sucia
Bílis negra envenenada
Lo que entra
Ya no cura,

La sangría es necesaria
El cuchillo
Y el cuenco
La sangría es necesaria

Sangre preso,
Sangre lodo,
Él precisa salir
En el hocico
De un lobo,
En la espada
Del visir.

Efendi, efendi,
Yo destruí un sueño:
Mi derviche
Del tesoro triste,
Mi cariño, mi esfinge.

3.9.07

Alergia

Ritualmente nos ajoelhamos para pedir pelo que os outros nem pensam em agradecer. Diariamente. Nos repetimos, nos enfileiramos e caímos de joelhos. Todo lugar é sagrado, toda hora é hora. Na fila da loja de conveniências, nas salas de espera estéreis, entre animais em pânico e almoços de família. O desespero se vale de qualquer cenário.

Nós suamos de fora para dentro. A pele absorve, a pele multiplica e devolve. A minha alergia forma padrões em alto relevo nas minhas coxas; parecem caracteres japoneses. Os dos braços parecem hebraico. Os da anca, árabe. O meu corpo quer falar comigo mas eu não consigo decifrá-lo. Apenas coço e tento apagar os recados. Quem sabe ler o que está escrito na pele do tigre?

Faz mais de quatro anos que eu tenho essa alergia.

A dermatologista me encaminhou, de cara, para um alergista. O alergista fez testes, descobriu só o que eu já sabia. E deu, depois de três consultas, o diagnóstico formal da ignorância médica: “Deve ser psicológico”.

Eu não fui ao psicólogo, apenas aumentei a dose do antialérgico que eu tomo diariamente. Não tem efeitos colaterais, não dá sono. Mas eu imagino se um dia, pelo acúmulo de anos de antialérgicos, eu talvez me torne estéril, ou desenvolva um câncer nos rins.

Psicológico é o cacete. Depois de quatro anos ainda apresento os mesmos sintomas quando desvencilhada do Hixizine. Que estado de espírito ou enquadramento mental sobrevive quatro anos sem alterações? Eu te digo: Nenhum. No parapeito ou no pódio, eu me coço.

Eu desisti e, no processo de desistir, aprendi a viver assim. Calo o meu corpo com dois comprimidos diários. Alguma coisa vive sob a minha pele. Não posso matá-la, mas consigo calá-la diariamente. E isso é bom o bastante para mim.

16.8.07

Fauna de uma fêmea de 22 anos


Outrora toda sorte
de animal estranho e selvagem
vivia dentro dela,
mas uma febre muito alta
os exterminou.

A febre alta se foi
e ela acordou vazia.
Uivos, rugidos, ganidos,
rosnados, trinados,
tudo havia se calado.
Jaguares, lobos, touros,
tigres, águias, coiotes,
cavalos e graúnas,
Todos silenciosos
e extintos.

O corpo ainda quente,
a pele ainda ardia
como uma queimadura de sol;
No leito adoentado
clamou por sua fauna
mas nada recebeu além
de um beijo no olho
e um comprimido.

9.8.07

Na Eminência (título provisório)


Aqui, na presença de olhos pardos, aqui, na eminência de olhos azuis, enfim, na incerteza de olhos que mudam de cor. Ele abrigava, sob os cílios, um segredo inconfessável. Piscava e se desfazia do último reflexo que os olhos contiveram. Pra onde foi? Ele não diz, é segredo de estado de espírito. Os olhos ruminam, regurgitam o que ele já viu; estão fechados.

Em Copacabana faz um frio estrangeiro. No ônibus, no metrô, nos espaços fechados, sentimos o cheiro de mofo e naftalina exalados pelos agasalhos inutilizados há tanto tempo. Todos têm cheiro de gaveta de avó, todos parecem que acabaram de desembarcar de São Paulo. O hálito de mentol do inverno nos transformou em estranhos bem vestidos. O porteiro me confessa que está usando polainas. Eu acho que é um certo exagero, mas considero a possibilidade de estar subestimando o frio que eu sinto. Em casa visto polainas. Faz sentido, já tinha esquecido como era não sentir frio.

Uma vez eu queimei muito a pele, uma vez eu fiquei muito doente com intoxicação alimentar. Eu não lembrava como era ser tocada sem sentir dor, eu não lembrava o que era sentir fome. Quando eu morrer, quando eu não respirar, eu não vou lembrar da falta de ar que eu sentia quando viva.

C. e X. moram em um país estrangeiro onde a moeda é mesma, mas não vale a mesma coisa; onde falam a mesma língua, mas usam as mesmas palavras. Lá não tem mar, tem um monte de coisas. Mas não tem mar.

1.8.07

O da navalha

Doa suas dores
E dói elas sozinho.
Desfiando a navalha
Com dentes de bronze e prata
Quase não sangra
E se sangra
Sangra frio.
Inalou o suor
Doce do cajueiro
E saiu um dia dizendo
Que ia matar um homem.

Despejou uma cana no pâncreas,
Assolou um quarto de hotel.
Rezando ele me jurou
Que era homem de bem –
Tola que sou, tola que sou,
Eu acreditei.

25.7.07

E descobriu-se bela...

O abandono da identidade X uma aceitação da beleza

Sendo maquiada para o olho implacável da câmera, sinto repulsa pelo meu “dia de rainha”. Mãos alheias ao meu corpo, e a unidade que ele representa, me manipulam para tornar minha imagem bela. Minhas sobrancelhas, e todos os meus demais pêlos, são depenados, minha pele arde, sufocada pela quarta camada de reboco cosmético. A chapinha de cerâmica arranca fios e mais fios do meu cabelo a cada nova investida, o curvex besuntado de rímel arranca cílios. Minhas perenes olheiras (fossos, na verdade) são comentadas e batalhadas, a penugem sobre os meus lábios é combatida com medidas drásticas. O secador queima o meu couro cabeludo, o difusor inferniza as minhas orelhas. Minhas unhas são inapropriadas, meus pés são demasiado brutos. Me recomendam que, durante a filmagem, eu não erga os braços para não expor um começo de pêlos sob a axila que não é louvável. Sentada em meu trono, não sinto tristeza, frustração ou raiva. Conforme constroem minha imagem bela o que eu sinto é a minha ausência e um leve enfado.

Terminada a guerra contra os meus defeitos, me vejo no espelho e me descubro bela. É um choque – a realização do meu potencial para uma beleza tão “segura” e controlada me assusta. É uma beleza que não corre riscos, inegável. Esse choque inicial é seguido por um inchaço significativo do ego perante a minha possibilidade de representar essa beleza. Eu não sou essa beleza, eu a represento. “Se eu me maquiar assim, se eliminar tal e tal coisa, se esconder isso e aquilo, seria bela.” Mas, como não faço e não sou assim, me sinto feia – todas as impressões anteriores da minha beleza (numa fotografia em que apareço particularmente bem, na lisonja rasgada de um amante), me parecem falsas. Aquela é a real beleza, pois foi construída metodicamente dessa forma. As minhas construções não são nem tão metódicas, bem realizadas ou totalmente dedicadas.

Aqui, emplastada com quilos de corretivos e atenuantes, represento a beleza, e isso faz eu perceber que não sou bela. Se tenho que a representar, não a sou. Sou uma personagem sem falas, sem motivação além do ser bela. Isso me entedia, me entristece, apesar de uma relutante alegria em abraçar esse papel. Tudo isso é uma espécie de transplante de alma: sou bela, sou outra, sou imagem criada por mãos que não são minhas, por um conceito de beleza que não é meu. A alegria e a tristeza se chocam e eu não sei se estou vestindo um véu, ou se esse véu foi erguido.