21.3.07
Tostói disse uma vez: "Deus espera". Sempre gostei desse dizer e essa música do Wallflowers é, de uma certa forma, uma continuação disso. Acho fantástica a letra e a melodia, que eu não descreverei porque, como Zappa disse, escrever sobre música é o mesmo que dançar sobre arquitetura. Ou alguma coisa assim.
"Seems like the world's gone underground
Where no gods or heroes dare to go down
As teardrops from a hole in heaven come
Overhead like ravens dropping down like bombs
Through the morning's silver-frosted glow
God says nothing back but I told you so
I told you so
God bless the void of my day dreams
Head back in the snow making angel wings
As slow motion dancing lights at dawn
Sail beneath a burning yellow sun
I'm calling out from the deep ends of my bones
Time says nothing back but I told you so
I told you so
Still waters rising in my mind
Black and deep, smoke behind my eyes
Last night I could not sleep at all
I hallucinated that you were in my arms
To be in your heart I failed my own
Love says nothing back but I told you so,
I told you so
Still here reclimbing every rung
Someone saw something,someone speak up
Back over the rotted bridge I cross
Open up these graves, let these bodies talk
Buried under leaves blood red and gold
Death says nothing back but I told you so,
I told you so"
J.
20.3.07
(Para Natércia P.)
I had a thousand names on this list,
My men, dead and wounded,
Living at the shadow of your name,
Blinded by your golden basking glory.
You could say it was worth it -
But I can't.
They were just stand-ins, hun?
Just small, faceless
background figures.
Never got a part here.
People that will only be recognized
By tattoos and dental records,
Extras in a movie no one will see.
I had a thousand names on this list.
Each one,
Every single one,
Is gone.
We're grasping for air in the bowels
of this ship,
this sinking ship.
The band quitted playing.
They are all safe, bless their hearts,
They are all safe, damn their eyes.
"Load in the diseased,
Load in the old man's sheep."
We're going on a voyage.
J.
9.3.07
Livros Lidos em 2006
Faço essa listinha todo ano, pra poder olhar no fim do ano e lembrar de todos os livros que eu li. É um mecânismo anti-sequela...
1. A Divina Comédia - Dante Alighieri
2. Johnny Cash - An Autobiography
3. To Kill A Mocking Bird - Harper Lee
4. Confraria dos Espadas - Rubem Fonseca
5. Crime e Castigo - Dostoievisk
6. Zuckerman Bound - Philip Roth
7. The Diamond As Big As The Ritz And Other Stories - F. Scott Fitzgerald
8. King Lear - Shakespeare
9. Otelo - Shakespeare
10. Secreções, Excreções e Desatinos - Rubem Fonseca
11. Dubliners - James Joyce
12. Hamlet - Shakespeare
13. A Primeira Viagem Ao Redor Do Mundo - Diário da Expedição de Fernão Magalhães - Antônio Pigafetta
14. Ô Copacabana - João Antônio
15. Contos - Machado de Assis
16. Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios - Marçal Aquino
17. Contos - Guy Maupassant
18. Sonnets From The Portuguese - Elizabeth Barret Browning
19. Os Melhores Contos - João Antônio
20. Antologia de Contos - Parte 1 - Machado de Assis
21. Antologia de Contos - Parte 2 - Machado de Assis
19.2.07
18.2.07
Não amanhece
Sobre meu rosto
Ou no resto no copo
No que resta no corpo,
No cuspe na taça,
Quando amanhece,
Se amanhece um dia.
Como óleo no vinho
Distorcidas cores.
E culpam a luz do sol,
O soldado que atravessou
O deserto com o seu tambor
Não culpou quem não o recebeu
Culpou baquetas e o fio dental.
Coitado.
Coitadinho.
Encarando o muro,
se pergunta -
"porque não
eu?
porque
não?"
Portões jamais respondem
Contra tempestades de areia
Contra o grão maléfico;
Permanece silencioso.
Você acena, as mãos,
como se regesse uma orquestra.
Com todo o drama das melodias,
De todas as partidas,
antes dessa.
Seus dedos tortos controlam,
tremem os arcos dos violinos,
pulsam a jugular do cello,
desafina,
por um compasso.
geme, grave, geme.
A dor dos cantores de tango
Entre as pernas da moça
Sua saia como cortina,
geme, o cello, geme,
O desejo que agoniza.
A orquestra toda some
Na curva da esquina
Enfiada no seu bolso,
onde um isqueiro é procurado.
17.2.07
Você Que

Eu canto pra você
que decifrou minha voz,
eu canto para esquecer
o que foi feito de nós.
A sua esmola
já não me banca
Mas sua gaiola
Ainda me tranca.
Eu penso
Quando
Quando a minha cama
Não quer me receber.
Vou a rodas galantes,
visito palacetes,
Brindo, beijo e danço
junto a outros cadetes.
Eu gostei de você
Que um dia disse que eu
Era a mais bonita
Que você nunca conheceu.
Outras meninas podem
Ter te conhecido
Mas se você conheceu elas
Eu nem imagino.
Um beijo pra você
Que não passa mais por aqui.
Ainda lembro bem,
nada se perdeu em mim.
Reviro os olhos pra dentro
E te vejo lá -
Mexendo no meu cabelo,
esperando a chuva passar.
6.2.07

Diálogo
H: Então, o que você queria me perguntar?
M: Você me conhece, você sabe que eu não sou a pessoa que tem respostas, eu sou a pessoa que tem perguntas. Um monte de perguntas.
H: Você nunca fez muitas perguntas para mim.
M: Eu não faço perguntas, a maior parte das perguntas não são nada além de Loucura Especulativa Feminina, são uns delírios interrogativos breves, que não valem nem a pena ser pensados, muito menos articulados.
H: Se você não tem nenhuma resposta então me faz uma pergunta. Me pergunta alguma coisa.
M: Você ainda me ama?
H: Caralho, você podia ter começado com alguma coisa tipo “qual a sua cor favorita”, ou sei lá...
M: Qual a sua cor favorita?
H: Preto.
M: Você ainda me ama?
H: Sim.
(...)
M: Viu, esse é o problema dessas perguntas, elas têm respostas, quando você tem alguma resposta você tem que fazer alguma coisa com ela. As pessoas esperam que você faça alguma coisa, é como funciona. E eu não sei o que eu faço com essa.
H: A gente faz o que a gente fazia antes.
M: Isso não serve mais pra mim.
H: O que?
M: O que a gente fazia antes. Não serve mais pra mim, eu preciso de mais.
H: Você ainda me ama?
M: Sim.
H: E o que a gente faz com isso?
M: Eu não sei, eu devia ter parado no “qual é a sua cor favorita”.
26.1.07
Relatório vulgar de uma noite
I
No Caminho
Eu vim ao nosso templo torto
No dia anterior ao seu retorno,
Eu vim procurar (e achei)
Rostos amigos pra me consolar.
II
Antes
Passei pelo Sheraton;
Senti meu coração se amassar
Feito uma bolinha de papel.
E, de Copacabana à Lapa,
(pela praia)
Esperei te ver
Em qualquer birosca –
-Pagar o meu táxi,
- Me beijar respeitando minha dor,
- Dizer que voltou pra me buscar.
Ah, tolinha.
III
Cúpula Comunicativa
Dezoito créditos no cartão,
Nenhum amigo que atenda
A porra do telefone.
Mesmo do orelhão
Eles sabem que sou eu.
IV
No balcão
- “Qual o seu nome?”
- “Salvador.”
- “Veio aqui salvar o que?”
- “A minha pele.”
V
Aqui nessa mesa de bar
O mundo definitivamente
Não precisa:
a) de mais fãs do Chico Buarque.
b) De pessoas que dizem que adoram Johnny Cash.
c) De gente que acha Roberto Carlos brega.
Não precisa,
Não precisa,
Não precisa.
Vai ver sou eu que não preciso.
Vai ver sou eu.
Vai ver...
Vai vênô....
VI
Quinto Chopp
O sétimo eu vou escrever em casa,
Já babando, meio em coma.
Só posso dizer com certeza absoluta
Que não vai prestar.
Mas pra que terminar bem
O que já começou mal?
Eu já nem estou mais triste;
Eu já nem estou.
“Fecha a
A minha é a dezoito.
Ainda falta muito.
VII
“Diga as suas preces”
Eu não sei o que eu vim
Fazer aqui,
Mas Deus sabe.
Minha única vantagem
É saber que Ele sabe
(E que Ele faz por mim).
14.1.07
Bogey

Um ex-namorado meu dizia que se eu o traísse com Humphrey Bogart ele entenderia. Tentei fazer com que ele também extendesse sua compreensão ao Al Pacino, mas infelizmente ao Al ele não podia dar a confiança que ele dava à um homem morto. E hoje fazem 50 anos que Bogey morreu.
O "strong silent type" não existiria sem Bogart. Ele criou esse arquétipo. O sujeito caladão que encara seu drink enquanto se pergunta até onde ele iria por uma mulher e, entre o quinto ou o sexto trago, percebe que ele já foi metade do caminho e não há mais volta. Bode expiatório dos conformistas, corruptos, desonestos. Desafia figuras de autoridade, amarra o policial para pegar o verdadeiro bandido.
O cigarro eternamente suspenso na esquina do lábio. Qual é a dessas pessoas que tem um pacto misterioso com o vento e conseguem fumar sem usar as mãos? Eu não sei fazer isso. Entra fumaça do olho.
O sujeito que levou Dulci a descobrir o Cosmopolita. Precisava tomar um chopp para digerir A Relíquia Macabra, e entrou pela'quela porta de saloon do melhor bar da Lapa.
Bogart é a muito tempo a epítome do "cool." Não é moda, não é hype, é só cool. Não precisa de nenhum resgate. Ele está sempre lá. O anti-herói que realmente precisa se esforçar para fazer a coisa certa. Gente como a gente.
No fundo, no fundo, eu nasci para amar Humphrey Bogart.
J.
2.1.07
Já brinquei disso aqui antes. O negócio é o seguinte - eu abro o meu ITunes aqui e ligo no shuffle. Escrevo um testo curto durante a duração de cada canção - meio livre associação. Depois eu escolho um pedaço da música em questão. Pronto. É meio subto e quase não presta. Mas é divertido.
1- Señor (Tales Of Yankee Power) – Bob Dylan
“Señor, señor, you know their hearts is as hard as leather.
Well, give me a minute, let me get it together.
I just gotta pick myself up off the floor.
I'm ready when you are, senor.”
No deserto as coisas sempre começam devagar, e é assim que elas terminam, a morte é lenta, longa, covarde. Aqui se morre aos poucos, sem nem se perceber. Mentes mais alertas talvez dêem falta de um pedaço de um baço, de uma corda vocal estourada, mas aqui nenhuma mente está alerta. O deserto não respeita a memória dos seus mortos, o deserto não tem memória. Eu te digo que, com certeza, ninguém entre esses dois acampamentos está ali por escolha própria e, se foi por escolha própria, te garanto que estão profundamente decepcionados com a escolha que fizeram. Miragem é salvação, jacaré é tronco. Qualquer coisa é alguma coisa para quem vagueia entre essas dunas. Qualquer coisa é muita coisa, coisa demais.
2- Conselho – Nora Ney
“Se você me encontrar pelas ruas
Não precisa mudar de calçada
Pense logo que somos estranhos
E que entre nós houve nada.”
Eu estou nesse bar faz meia hora, há meia hora sozinha e pouco me incomoda. Me dizem, alguns amigos mais preocupados, que beber sozinha é deprimente. Eu não vejo o que há de deprimente nesses goles largos e espaçados. Por que a minha sede precisaria de companhia? Eu tenho alguns desamores para mastigar, regurgitando e engolindo com esses goles largos. Engolir à seco é difícil, por isso bebo. Não é para me alegrar, não é para esquecer, é só para ajudar a desfazer um nó ou outro que se formou entre a minha boca e o meu peito. Nada de triste nisso.
3- House Of The Rising Sun – Odetta
“One foot, it’s on the platform
And another one on this train”
Escreva à Carminha e peça-lhe que aceite o conselho dessa puta triste. Diga-lhe que não tenho qualquer intenção de lhe sugerir as escolhas certas, mas que eu conheço, e sou prova viva, de todas as escolhas erradas que ela poderá fazer. No fim das contas, não há muito o que dizer, só peça que ela reze para se apaixonar pelo homem certo, por um homem que nunca ouse virar a mão na cara dela, ou lhe pedir dinheiro para mais um trago. Eu esqueci de rezar pelo homem certo e acabei com um homem que esqueceu de rezar por mim. No fim de repente seja sorte. Eu às vezes sinto que eu mereço coisa melhor. É ocasional a sensação, um lampejo de um outro mundo, que poderia ter sido meu, que me visita às vezes, enquanto vejo esses velhos nojentos gozarem sobre o meu corpo. Tomara que Carminha chegue lá.
4- 19 Días Y 500 Noches – Joaquin Sabina
“Tenían razón
mis amantesen eso de que, antes,
el malo era yo,
con una excepción:
esta vez,yo quería quererla querer
y ella no.”
Já não pago mais as contas dos viciados, dos cocaínomanos. Você sabe, a cocaína afeta o lóbulo frontal do cérebro, a parte que comanda as funções executivas – moral, ética, culpa. E é essa parte que você sente doer depois de algumas carreiras, e é a dissolução desse pedacinho de cérebro que gera esses assassinos de sangue frio, sem escrúpulos, que não perdem perdão a ninguém. Elias Maluco, Marcinho VP, fanáticos cheirados com espadas samurais. Essas pessoas que se tornam ilhas simplesmente por que fecham todos os portos, ou cobram impostos altos demais para qualquer mortal com algum pingo de amor-próprio.
Eu abri os meus portos, baixei alguns impostos, extingui outros completamente. Minha ilha se tornou uma zona-franca. E assim também se tornou um porto seguro para os amantes cruéis, falsários, piratas.
Que fechem os portos então. Eu vou ser ilha um pouquinho, desligar o telefone vermelho, quebrar o botão de emergência. Que o resto do arquipélago não me queira mal. Que não me queiram at all.
5- Blood Brothers – Bruce Springsteen
“Well the hardness of this world
Slowly grinds your dreams away
Making a fool’s joke
Out of the promises we made”
Veja. Cada uma dessas cicatrizes representa uma promessa que eu cumpri. Levando em consideração todas as promessas que eu fiz são poucas as cicatrizes, poucas demais para que eu possa me orgulhar do conjunto da obra. Me orgulho delas em particular, mas não do conjunto da obra.
Você me amarrou aos trilhos de um trem de uma linha desativada. A piada mais cruel de todas. Eu esperei morrer, ditei ao vento o meu testamento, recebi a estrema-unção das estrelas. Depois passei a rezar pelo trem, sendo assombrada pelo apito, pelo som das poderosas rodas que esfacelariam o meu corpo cansado. Antes isso do que morrer de sede e de fome.
Não sei como eu saí de lá. As cordas apodreceram, tanta chuva, tanta coisa passou por elas. Menos o trem. A piada mais cruel de todas.
Cada cicatriz, uma promessa que eu cumpri. Me orgulho de cada uma.
6- Meu Caboclo Não Deixa – Noriel Vilela
“O meu caboclo mandou te avisar
Que quem faz o meu acaba pagando
E não adianta fazer teu feitiço
Porque tu vai fazendo e ele vai desmanchando.”
Nasceu filho de Iansã, em uma encruzilhada onde cantam sete galos. Sua mãe era louca, seu pai fugitivo, nasceu torto, nasceu imundo, nasceu todo errado. Hoje em dia tem uma arma que late quando alguém de aproxima e um coração que atira quando alguém pisa em cima. Fecha e abre qualquer rua, por uma garrafa de pinga ou até menos. As piores das intenções estão por trás de cada beijo.
7- Estrela Dalva – Orlando Silva
“Estrela Dalva, minha estrela matutina,
Te fizeram pequenina
Para o amor que Deus me deu.
Eu te suplico, da-me flor em vez de espinho,
Ilumina o meu caminho,
Que o destino escureceu.”
Eu escrevo de um lugar onde não bate luz, onde talvez qualquer facho de luz nunca tenha iluminado aquela dança estranha das partículas de poeira. E eu sonho com uma luz difusa, morna, uma luz que contorna e aquece. São diversas luzes, um arquipélago de estrelas que ilumina um continente ainda não descoberto. Nem por isso é virgem, nem por isso é bom, só é desconhecido. Eu nunca rezei à Deus por uma passagem, eu não gosto de pedir nada à Ele. Eu fico guardando a minha oportunidade de pedir alguma coisa, quero ter crédito na praça, sabe. Mas seria bem gasto, todo o crédito de uma vida austera, seria bem gasto com um mapa para a ilha cintilante, entre Ursa Maior e o Cruzeiro do Sul...Eu não quero mais viver sob o signo de câncer, nesse trópico sujo.
29.12.06

Menina & Rosa
Tatuagem nova - design meu (a letra inclusive) capturado infalivelmente pela mão de Nino, lá da King Seven.
"Beauty walks a razor's edge
Someday I'll make it mine"

Então, a minha resolução de 2007 (talvez uma resolução para vida inteira):
"A beleza caminha sobre o fio da navalha
Um dia eu a farei minha"
J.
16.12.06
Canção nova. Em mi menor (só pra não escrever "em Em"), mais uma vez. ô acorde bom.
Não vou dividir a culpa,
Se a culpa é só uma,
Ela é toda sua, meu amor.
Não vou aceitar desculpas,
Sei que você tem algumas,
Catalogadas num computador.
Seus ministros vão cair,
Você vai ver e vai sentir
A dor de amar um traidor...
Meu bem, não é a primeira vez,
Olha o que você fez,
A merda que você fez.
Nem vem, que eu já fui e voltei,
Eu sei o que você fez,
A merda que você fez.
Essa arquitetura leve
Dos seus beijos talvez negue
O peso de tanta solidão.
Caia de joelhos, reze,
Mas se lembre que a prece,
Talvez se transforme em maldição.
Suas musas mal-comidas
No buffet já fazem fila
Esperando a sua gratidão
Meu bem, não é a primeira vez,
Olha o que você fez,
A merda que você fez.
Nem vem, que eu já fui e voltei,
Eu sei o que você fez,
A merda que você fez.
Abra a boca, feche os olhos,
Isso, agora estamos quites.
Agarrados aos destroços,
Às promessas e os deslizes...
Não vou dividir a culpa,
Se a culpa é só uma,
Ela é toda sua, meu amor...
J.
Não sei se é ético dedicar poemas nos outros para alguém, mas se for dedico esse (ou essa tradução tosquíssima) à N., que ruma a terra da garoa em breve.
Uma Arte
Não é difícil dominar a arte de perder;
Tantas coisas parecem já estarem tão obstinadas
A serem perdidas que sua perda desastre não pode ser.
Perca algo todo dia. Aceite a perturbação
De chaves de porta perdidas, da hora mal aproveitada.
Não é difícil dominar a arte de perder.
Então pratique perder mais, mais depressa:
Lugares, e nomes, e para onde você desejava
viajar. Desastre nada disso pode trazer.
Eu perdi o relógio da minha mãe. E veja! foi-se a última,
ou quase-última, das minhas três casas amadas.
Não é difícil dominar a arte de perder.
Eu perdi duas cidades, eram adoráveis. E, mais vasto,
Alguns reinos que eram meus, dois rios, um continente.
Eu sinto falta deles, mas desastre não pôde ser.
---Até perdendo você (a voz jocosa, um gesto
que amo) eu não deverei mentir. É evidente que
Não é difícil dominar a arte de perder.
Apesar de talvez parecer (escreva!) desastre.
Elizabeth Bishop
No original: http://www.cs.rice.edu/~ssiyer/minstrels/poems/639.html
O poema que eu queria ter escrito para o homem que eu mais amei (ou o poema que ele deveria ter escrito para a mulher que mais amou ele).
Roses And Rue
Could we dig up this long-buried treasure,
Were it worth the pleasure,
We never could learn love's song,
We are parted too long.
Could the passionate past that is fled
Call back its dead,
Could we live it all over again,
Were it worth the pain!
I remember we used to meet
By an ivied seat,
And you warbled each pretty word
With the air of a bird;
And your voice had a quaver in it,
Just like a linnet,
And shook, as the blackbird's throat
With its last big note;
And your eyes, they were green and grey
Like an April day,
But lit into amethyst
When I stooped and kissed;
And your mouth, it would never smile
For a long, long while,
Then it rippled all over with laughter
Five minutes after.
You were always afraid of a shower,
Just like a flower:
I remember you started and ran
When the rain began.
I remember I never could catch you,
For no one could match you,
You had wonderful, luminous, fleet,
Little wings to your feet.
I remember your hair - did I tie it?
For it always ran riot -
Like a tangled sunbeam of gold:
These things are old.
I remember so well the room,
And the lilac bloom
That beat at the dripping pane
In the warm June rain;
And the colour of your gown,
It was amber-brown,
And two yellow satin bows
From your shoulders rose.
And the handkerchief of French lace
Which you held to your face -
Had a small tear left a stain?
Or was it the rain?
On your hand as it waved adieu
There were veins of blue;
In your voice as it said good-bye
Was a petulant cry,
'You have only wasted your life.'
(Ah, that was the knife!)
When I rushed through the garden gate
It was all too late.
Could we live it over again,
Were it worth the pain,
Could the passionate past that is fled
Call back its dead!
Well, if my heart must break,
Dear love, for your sake,
It will break in music, I know,
Poets' hearts break so.
But strange that I was not told
That the brain can hold
In a tiny ivory cell
God's heaven and hell.
- Oscar Wilde
Tentei traduzir. Não consegui.
Dançar Pra Não Dançar
"Oh, look at me goLike a 2 dollars hoe
Like a 2 dollars hoe
Without a pole"
(estou guardando isso para quando eu fizer o meu glorioso debut no mundo do rap/hip-hop)
"Minha filha, você e a sua mãe são da escola de samba Vai Que É FÁCIL!" - Maria da Salete, minha avó
O comentário se deve ao fato de que tanto eu quanto a minha mãe dançamos de uma forma, afê, insinuante. Eu não sei qual é a desculpa da minha mãe, mas a minha é bem clara e objetiva - eu culpo todas as músicas com as quais eu começei a dançar - "Segura O Tchan", "Dança Da Bundinha", "Na Boquinha da Garrafa", essas coisas. Nas festinhas de play, onde eu dei os meus primeiros passos tímidos e atrapalhados, era isso que tocava. Porra, todas as danças que eu sabia envolviam, em algum momento, "botar as mãos no joelho e dar uma abaixadinha". Eu tinha 12 anos, funkeira, blusinha de lycra e calça strech, pensando em retrospecto, não tinha a menor idéia do que eu estava fazendo ou das consequências eróticas daquilo.
Pensando bem, eu sabia que aquilo era uma manifestação de sexo, só não sabia exatamento sobre que tipo de sexo, que posições, etc. Na verdade o funk, o axé e o pagode fizeram pela minha geração o que o Rock 'N' Roll fez por aquelas meninas branquelas de saia godê dos anos 50 - fizeram a gente se sentir como gente grande. Para mim, quando eu tinha 12 anos, a única coisa que me fazia uma menina, e não uma mulher, era o fato de que mulheres trepavam, e meninas não. Então dançar daquele jeito era um jeito de se sentir mulher, sem ser considerada uma piranha precoce. A Carla Perez foi o Elvis da minha geração, fazer o que...
Eu ainda danço do mesmo jeito que eu dançava, e eu me sinto bem. Eu sinto prazer em provocar, ser desejada sem ser tocada - e tanto subir no palco para cantar um baladão romântico quanto rebolar descendo até o chão são uma manifestação disso. Eu nunca gostei muito de ver homem dançando, acho homem rebolando uma das coisas mais broxantes de todos os tempos - eu gosto do sujeito que fica apoiado no bar, com o copo na mão, me assistindo dançar.
J.
23.10.06
Eu mal posso respeitar a minha respiração. Eu a prendo entre goles de champanhe, eu a esmago com o peito pesado de desejos, com a fumaça de últimos de muitos outros cigarros que ainda virão. Eu sinto saudades, sufoca com sombras escuras, deixa o pulmão estreito, as causas e efeitos distantes. Quando eu estava lá, com você, com seus pés nas minhas pernas sob a inapropriada mesa de churrascaria onde eu passei a minha infância fazendo esculturas com pães de queijo ruins e palitos de dente. Porque você faz isso comigo? Porque você não faz o que eu quero mas não posso pedir?
Eu quero o elusivo vestido branco que cresce frente aos olhos das mulheres na vitrine, o filho que recomendarão que seja abortado, o estúpido laço dourado, as horas entre suco de laranja, jornais que só você lê e começos de dias que começam tarde demais para terminarem cedo. E você lê os jornais pra mim, quebrando os códigos da máfia nos classificados:
“O Tio Altermar Gostaria de Agradecer A Visita De Seus 15 Sobrinhos A Casinha Na Encosta. Esperamos Vê-los Novamente Na Próxima Primavera”
ou alguma coisa do gênero.
E eu ria, tão boba, rindo daquele jeito, escondendo a minha nudez atrás de um lençol estrategicamente largado sobre minhas pernas. E os dias passaram, eu novamente raspei os meus sovacos, as tropeços e solavancos atravessei as multidões que roubavam nossas palavras. E eu agora entendi quase tudo o que você dizia, todas as mensagens subliminares de canções românticas que me fizeram sentir a melhor entre as mulheres por estar nos braços de um sujeito que beijava os meus olhos antes de eu dormir. Eu me perdi depois, sozinha no carro escuro, voltando pra casa sob os olhos de um preocupado taxista enquanto tentava enxugar a água salgada que os meus óculos escuros não conseguiram aprisionar. Deus sabe como eles tentaram.
O amor é uma ferida. Não ponha sal sobre ela. Ela precisa respirar, não a cubra com essas bandagens, não olhe pra ela com medo. Afinal, foi minha voz que me traiu? Foram os óculos? Foram as minhas mãos? Eu quis me entregar, mas ainda não sei como. Você não me deixou entender, só me fez entregar cada vez mais, cada centímetro de um braço a ser beijado, cada suspiro e cada unha partida contra as suas costas.
J.
Que sangue corre nas suas veias?
sangue sujo, sangue de besta
Que nem os cães querem lamber.
E quem vai querer beijar
Essa sua boca azeda,
essa moldura de língua negra?
Alguém virá, alguém virá.
Agora eu lembro, sim, eu lembro,
Da luz fosca de um pêndulo
Da onde gotas de óleo escorriam.
Por que me ungiam nesse altar?
E que altar, que altar era aquele,
Quem me amarrou nele?
E como eu voltei a ser
Essa que agora brinda você,
Com a reza destorcida,
E a boca inquieta.
Que agora transfigurada
Com seus olhos rolando na nuca,
Uma gralha bicando seus seios,
Crisântemos velhos na sua cintura,
Carregados de perfumes -
Que não pertenciam a eles -
Talvez sangue, talvez rede
de esgotos, talvez vislumbre
De algo que não se conhece.
Não, eu nunca fui aquela.
Eu não voltei, cheguei agora.
Eu me perdi, foi numa dessas,
Vamos, já passou da hora,
já doeu e já sarou;
O que restou eles jogaram fora.
E finalmente, estou aqui,
nesse banquete de formas negras:
Erguendo meu corpo sobre a mesa;
Mãos sujas do sangue da besta.
Erguendo a voz e os olhos cegos,
brindando tudo que nego
em um copo pra você.
Pois nada restou,
Nada que possa ser mencionado
Talvez só uma cadeira
Para um novo convidado.
Aspira as horas lentamente,
Decodifica seus perfumes.
O que te salva e te envenena
Nunca virá imune
De castigo ou recompensa.
Desconfia inocentemente
Da sua própria inocência.
Paixão morna e primordial
Deve pulsar entre a mente e os dedos,
Entre o coração e a sola dos pés,
Entre a luz e os olhos acesos.
Entre - sem pressa: ouça -
O vago assobio, o lento sussurro
Que constroe a vastidão do mundo.
Não tenha medo do tempo.
Ele abrirá as covas,
E não irá reabri-las.
Quebra os berços que adormeceram
Ouvindo suas canções antigas.
Não tenha medo do tempo.
Tema, sim, todas as promessas
De corações inoxidáveis,
Não confie nos astetas
Que ostentam sua bondade.
Seja noiva sem véu
Perante o espelho.
Se arrependa, se perdoe,
chore se for preciso,
Só se for preciso.
Eventualmente será preciso.
Você é dessas abençoadas
Com uma alma larga
Que se ergue acima da pele
E se esfrega nua no mundo.
Às vezes contra o arame farpado
De mesquinhos campos marcados
Por círculos de sal.
Às vezes contra o veludo flúido
Que se derrama sobre tudo
Que é belo por si só.
Eu te desejo apenas
Tudo o que você merece,
E nessa longa lista, inclua:
O meu amor, as minhas preces.
Além disso: coragem.
Coragem de ter esperança -
Que ela não falte, te inunde,
essa tão rara e bela,
Mais corajosa das virtudes.
Porque a vida passa rápido
E os sonhos se movem devagar,
E esperança é a certeza
De que eles irão se encontrar.
J.
14.10.06
Novena debulhada
com muito custo,
muito desespero.
Novilha desgarrada,
sem berrante,
sem berreiro.
Foi a estrela perdigueira
que me trouxe até aqui -
Não achei menino ou manjedoura,
só uma mula parda e coxa,
amarrada à um pé de caqui.
No leito do rio seco
M'encurralaram, sem saída.
Mas o leite do seio esquerdo
de Nossa Senhora de Aparecida,
Curou o que não tinha jeito
e atou as pontas partidas.
Eu sobrevivi tudo isso
só pra voltar ao começo
E me acabar de novo.
J.
12.10.06
"I know drinking is not the answer, but it makes me forget what's the question."
("Eu sei que beber não é a resposta, mas me faz esquecer qual é a pergunta")
Essa, como a anterior, saiu em uma conversa com o Mac, meu irmão perdido na South Carolina. Já escrevi sobre ele aqui, é só procurar que você acha. Uma das figuras mais amadas da minha vida.
J.
6.10.06
"I know I have a reputation as a quick tempered person, but that ain't fair. There are 3 things for which I have endless patience for: children, animals and my lovers, which usually are a mix of the 2 previous things..."
(Eu sei que eu tenho uma reputação de esquentadinha, mas não é justo. Tem 3 coisas para as quais eu tenho paciência infindável: crianças, animais e os meus amantes, que normalmente são uma mistura das duas coisas anteriores...")
J.
2.10.06

Venha Nos Dizer
Mais uma em Mi Menor
Esse é você sorrindo
Com apenas cinco anos
E aquele é um tio
Que te olhava meio estranho
Esse é o seu diploma
Essa é a sua chance
Ah, disso você entende
Isso é coisa de gente grande
Te tiramos da forca
Que nós mesmos construímos
Agora venha e nos diga
Como você chegou a isso?
Muita calma nessa hora
Nada disso faz sentido
Isso pouco importa agora
E não se fala mais nisso
Esses eram seus amigos
Mas você arranjou outros
Essa bela te largou
Nesse mato sem cachorro.
Quem é que te visita,
O que você tem lido?
Venha agora e nos diga
Como você chegou a isso?
Desse dia em diante
Tudo isso vai mudar
Essas fotos na estante PONTE
Finalmente vão falar
Nesse caso é diferente
Me inclua fora disso
Essa nunca te amou
Mesmo assim teve o seu filho...
Esse te deve dinheiro,
Isso já perdeu a graça,
Desse mato sai coelho
Dessa vez você me paga.
Alguém te disse um dia
Que esse dia estava vindo
Então venha e nos diga
Como você chegou a isso?
J.
Show No Saloon - Dia 27 de Setembro
É incrível como as fotos podem revelar coisas sobre quem as tirou:Descobrimos que a senhora Natércia Pontes é mais uma podólotra anônima. 
Eu e Nossa Senhora Da Aparecida no peito.

Diab, o leão do Líbano, em toda sua glória dourada.
(ao fundo uma pintura minha)
Um dos nossos maravilhosos homens da camêra. Agradecimentos a todos eles, que sabem que são. YouTube Maktub! Nos aguardem....

Enfim: A gente se fode, mas a gente se diverte.
SET LIST:
- Os Meios E Os Fins
- Sangue Árabe
- Garoto Idiota
- Quando Uma Mulher Chora
- Amor - 0/ Sem Limites (Love - 0/No Limits - Bob Dylan)*
- Carmim*
- Del Rey*
- Eu Mereço
- Flores de Abril
- Powderfinger (Neil Young)
- Blues # 12
- Turalulalula
- Estrada da Vida (Milionário E José Rico)
- Folsom Prison Blues (Johnny Cash)
- Pasárgada
- Rap Do Silva*(Bob Rum)
* - canções tocadas em formato acústico.
Obrigada a todos que compareceram, e esperam que tenham se divertido tanto quanto nós: Próxima parada: Melt, dia 23, Festival Gloss!
J.
22.9.06
20.9.06
canção
Esperou, treze e tal,
No termômetro na esquina.
Um garçom, um sinal,
Matou a sede sozinha.
E sonhou qu'ele vinha
Pra nunca dizer adeus...
Lembra de sentir frio
Na noite que ele esqueceu.
E eu ando nessa rua,
Que agora é só minha,
Me vejo numa poça,
Pois choveu durante o dia.
Qualquer corpo me teria,
Se qualquer fosse o seu...
Lembro de sentir frio
Na noite que ele esqueceu.
São tantas as coisas
Que querem te derrubar, meu bem.
São tantas as pessoas
E você só quer encontrar alguém.
Mas Deus te achou sob uma marquise,
Joelhos na lama e lábios tão tristes,
O que é que te prende nesse lugar?
Correntes, memórias, amor ou azar?
Quanto tempo demora pro tempo passar?
Foi dormir, cinco e tal,
Acordou suando muito...
E dormiu o dia inteiro,
Acordou e estava escuro.
Mas sonhou qu'ele vinha
Sem palavras de adeus...
Lembra de sentir frio,
Na noite que ele esqueceu.
J.
Então eu acordo. Os cães dormem.
J.
Em uma manhã nublada de uma quarta-feira, Otávio desembarcou no Rio de Janeiro. Trazia apenas uma mala de rodinhas, composta cuidadosamente na noite anterior, e uma pasta de couro preta contendo papéis enfadonhos que pautariam a sua visita. Não planejava qualquer aventura turística ou passeio agradável pela orla carioca, fizera esses planos em outras viagens ao Rio e eles se perderam entre os papéis enfadonhos que sempre o acompanhavam. E para Otávio onde não haviam planos não havia vontade – não por simples abdicação resignada, mas porque a alegria dele vinha de ver os planos em ação, não da ação em si.
Viajava muito pouco a lazer e, quando o fazia, se sentia na obrigação de voltar à pequena cidade no extremo sul do país, de onde ele e a esposa provinham, e trazer notícias a sua família saudosa. Aos homens reportava a situação da política e da construção civil de São Paulo enquanto sua esposa e as outras mulheres teciam, com dois dedos de maldade e um de desdém, uma prosa investigativa da vida dos locais. Uma vez ficaram lá por duas semanas: foi o máximo que conseguiram sem que Otávio enlouquecesse com as asneiras do pai, e sem que Sílvia atirasse a sogra por uma das amplas janelas do casarão colonial. Mesmo assim Otávio teve que aturar, durante a viagem de volta, o longo relato da esposa, em ordem cronológica, de picuinha por picuinha: “Nós mal chegamos e ela já...” (...) “Você acredita que logo antes da gente ir ela veio me dizer que...”. Ele conhecia bem a mulher que trazia no banco do passageiro e sabia que um pedido de silêncio seria recebido como ofensa e só resultaria em mais falação. Então simplesmente a deixava discursar enquanto tentava se concentrar na paisagem que se embaçava, encoberta pelas palavras incansavelmente metralhadas por Sílvia. É verdade que em alguns momentos queria esganá-la, mas na maior parte do tempo estava contente por não ter que emitir opinião, só ouvir.
Chegou ao Rio de avião e, quando esse se encontrava a poucos metros da pista, já organizava seus horários, locações e exigências profissionais. Toda sua agenda era construída ao redor da sua necessidade de nove horas de sono diárias. Cada compromisso, hora e hora e meia gastas com olhos abertos era apenas uma subtração do tempo que pretendia gastar dormindo. Morfeu era seu grande e verdadeiro amor.
A primeira coisa a se fazer era ligar para Sílvia. Gostava de fazer isso, ela era sempre doce ao telefone. Depois tomaria banho e iria de encontro aos negócios, no Centro, Avenida Rio Branco. A reunião começaria às dez horas, seria interrompida para um breve mastigar em um restaurante à Kilo. Depois disso a coisa ficava detestavelmente incerta, mas não deveria se estender além do fim da tarde. Então seria preciso voltar ao hotel e escrever relatórios, enviar e-mails, solicitar documentos que pudessem estar em falta.
Otávio ligou para Sílvia; ela foi doce. Chuveirada, táxi, Rio Branco. A comida do restaurante à Kilo era muito ruim, mas ninguém parecia se importar. Acabou no fim da tarde. Mandou e-mails, requereu documentos, escreveu relatórios.
Acordou no dia seguinte vitorioso, com suas nove horas de sono conquistadas e um pouco de baba acumulada no canto da boca. Dormiu esparramado de bruços, bem no meio da cama de casal. Luxo ocasional. Não pode comemorar a vitória com a preguiça – os seus minutos, que compunham aquele fabuloso exército de vinte quatro horas, se sacrificaram bravamente em prol de seu sono; metade de um batalhão de sessenta foi dizimada. Estava atrasado para o seminário.
Saiu apressado, sem tempo de arrumar seus papéis, fazer a cama ou catar as roupas espalhadas no chão. Não gostava de deixar as coisas assim.
No táxi tentava lembrar se o hotel oferecia o serviço de camareiras. Não podia evitar sentir um pouco de vergonha em pensar que havia deixado toda aquela zona para que alguém a organizasse. Entendia que era exatamente essa a natureza do trabalho dessas pessoas. Mas não era isso. O que o incomodava era o fato de que a desordem e o descaso eram tudo que refletia sua existência naquele mundo alugado. Os papéis desorganizados e as roupas dispersas não poderiam dar a impressão correta sobre aquele homem correto, que doava casacos velhos para a campanha do agasalho, que na sua juventude batalhou o direito de sindicatos, que se preocupava tanto com a ordem e a retidão.
Durante o seminário, Otávio não conseguia se concentrar em nada do que era dito pelo principal palestrante. Olhava o relógio, impaciente, e pensava se elas já haviam vindo ou não, se elas estavam lá naquele momento. Reviu, desgostoso, seu último flash do quarto. No banheiro só havia estado para tomar uma ducha...
Não.
Por volta das cinco da manhã acordou com uma ereção. Sim, lembrava-se agora. Foi ao banheiro se aliviar e gozou com força e abundância que não lhe eram comuns. A porra atingiu a parede, na altura de seu umbigo, e escorreu para baixo, volumosa. Limpou tudo com papel higiênico.
Tudo?
Não seria exagero dizer que a esta altura Otávio estava extremamente nervoso. Procurou, no seu vago acervo de imagens daquela punheta sonolenta, algum traço de porra negligenciado na parede, no chão. Os azulejos eram brancos, as luzes não estavam todas acesas, era provável que alguma amostra houvesse permanecido lá, para ser encontrada por elas, para se juntar as outras evidências que comporiam o seu retrato mudo, indefeso, frente aquelas mulheres cruéis. Pois seriam mulheres, com certeza e, com certeza, o julgariam, o pintariam como um porco solitário. De fato seria mais de uma, seriam duas que trocariam entre si achados e risadas. O xingariam por ter de limpar sua esporra, da qual ele próprio tinha nojo.
Talvez ainda não fosse tarde demais. Talvez ainda não. Ligaria para o hotel naquele minuto, proibiria expressamente qualquer visita de qualquer camareira ao quarto 104.
Se espremeu através da platéia lotada a alcançou um corredor silencioso da onde poderia fazer a ligação. Procurou em todos os bolsos, da calça, do paletó e da pasta, o telefone celular. Procurou em vão; na pressa o abandonou na mesa de cabeceira. Não bateu com a cabeça contra a parede, mas teve muita vontade.
Otávio renegou a mesa redonda e se algum colega perguntasse em que pé estava o debate não saberia responder. Nada havia ouvido ou visto. Apanhou um táxi e nem enxergou a praia por onde passou. Calou o motorista, com grunhidos peçonhentos, todas as vezes que ele tentou puxar uma conversa. Otávio pagou e saiu apressado, fazendo o taxista se afastar com um pouquinho mais de fé no estereotipo do paulista estressado.
Passou batido pelo lobby, perguntar qualquer coisa levantaria suspeitas.
Abriu a porta, respiração staccato. Viu a colcha novamente cobrindo a cama, os papéis empilhados junto ao laptop, as roupas penduradas na cadeira. Tarde demais, tarde demais. Desconsolado entrou no banheiro e, acendendo todas as luzes, procurou algum indício do seu espólio viscoso. Não encontrou nada.
Uma hora depois fez o check-out. Passou os dois dias restantes em outro hotel. Não podia mais ficar ali, convivendo com as supostas impressões das camareiras.
Ligou para a esposa para informar a mudança de paradeiro. Ela ficou curiosa e quis saber o porquê daquela migração súbita. Otávio deu de ombros, como se ela pudesse o ver: “Não limpavam direito lá, era muito sujo.”
J.




