16.12.06
Canção nova. Em mi menor (só pra não escrever "em Em"), mais uma vez. ô acorde bom.
Não vou dividir a culpa,
Se a culpa é só uma,
Ela é toda sua, meu amor.
Não vou aceitar desculpas,
Sei que você tem algumas,
Catalogadas num computador.
Seus ministros vão cair,
Você vai ver e vai sentir
A dor de amar um traidor...
Meu bem, não é a primeira vez,
Olha o que você fez,
A merda que você fez.
Nem vem, que eu já fui e voltei,
Eu sei o que você fez,
A merda que você fez.
Essa arquitetura leve
Dos seus beijos talvez negue
O peso de tanta solidão.
Caia de joelhos, reze,
Mas se lembre que a prece,
Talvez se transforme em maldição.
Suas musas mal-comidas
No buffet já fazem fila
Esperando a sua gratidão
Meu bem, não é a primeira vez,
Olha o que você fez,
A merda que você fez.
Nem vem, que eu já fui e voltei,
Eu sei o que você fez,
A merda que você fez.
Abra a boca, feche os olhos,
Isso, agora estamos quites.
Agarrados aos destroços,
Às promessas e os deslizes...
Não vou dividir a culpa,
Se a culpa é só uma,
Ela é toda sua, meu amor...
J.
Não sei se é ético dedicar poemas nos outros para alguém, mas se for dedico esse (ou essa tradução tosquíssima) à N., que ruma a terra da garoa em breve.
Uma Arte
Não é difícil dominar a arte de perder;
Tantas coisas parecem já estarem tão obstinadas
A serem perdidas que sua perda desastre não pode ser.
Perca algo todo dia. Aceite a perturbação
De chaves de porta perdidas, da hora mal aproveitada.
Não é difícil dominar a arte de perder.
Então pratique perder mais, mais depressa:
Lugares, e nomes, e para onde você desejava
viajar. Desastre nada disso pode trazer.
Eu perdi o relógio da minha mãe. E veja! foi-se a última,
ou quase-última, das minhas três casas amadas.
Não é difícil dominar a arte de perder.
Eu perdi duas cidades, eram adoráveis. E, mais vasto,
Alguns reinos que eram meus, dois rios, um continente.
Eu sinto falta deles, mas desastre não pôde ser.
---Até perdendo você (a voz jocosa, um gesto
que amo) eu não deverei mentir. É evidente que
Não é difícil dominar a arte de perder.
Apesar de talvez parecer (escreva!) desastre.
Elizabeth Bishop
No original: http://www.cs.rice.edu/~ssiyer/minstrels/poems/639.html
O poema que eu queria ter escrito para o homem que eu mais amei (ou o poema que ele deveria ter escrito para a mulher que mais amou ele).
Roses And Rue
Could we dig up this long-buried treasure,
Were it worth the pleasure,
We never could learn love's song,
We are parted too long.
Could the passionate past that is fled
Call back its dead,
Could we live it all over again,
Were it worth the pain!
I remember we used to meet
By an ivied seat,
And you warbled each pretty word
With the air of a bird;
And your voice had a quaver in it,
Just like a linnet,
And shook, as the blackbird's throat
With its last big note;
And your eyes, they were green and grey
Like an April day,
But lit into amethyst
When I stooped and kissed;
And your mouth, it would never smile
For a long, long while,
Then it rippled all over with laughter
Five minutes after.
You were always afraid of a shower,
Just like a flower:
I remember you started and ran
When the rain began.
I remember I never could catch you,
For no one could match you,
You had wonderful, luminous, fleet,
Little wings to your feet.
I remember your hair - did I tie it?
For it always ran riot -
Like a tangled sunbeam of gold:
These things are old.
I remember so well the room,
And the lilac bloom
That beat at the dripping pane
In the warm June rain;
And the colour of your gown,
It was amber-brown,
And two yellow satin bows
From your shoulders rose.
And the handkerchief of French lace
Which you held to your face -
Had a small tear left a stain?
Or was it the rain?
On your hand as it waved adieu
There were veins of blue;
In your voice as it said good-bye
Was a petulant cry,
'You have only wasted your life.'
(Ah, that was the knife!)
When I rushed through the garden gate
It was all too late.
Could we live it over again,
Were it worth the pain,
Could the passionate past that is fled
Call back its dead!
Well, if my heart must break,
Dear love, for your sake,
It will break in music, I know,
Poets' hearts break so.
But strange that I was not told
That the brain can hold
In a tiny ivory cell
God's heaven and hell.
- Oscar Wilde
Tentei traduzir. Não consegui.
Dançar Pra Não Dançar
"Oh, look at me goLike a 2 dollars hoe
Like a 2 dollars hoe
Without a pole"
(estou guardando isso para quando eu fizer o meu glorioso debut no mundo do rap/hip-hop)
"Minha filha, você e a sua mãe são da escola de samba Vai Que É FÁCIL!" - Maria da Salete, minha avó
O comentário se deve ao fato de que tanto eu quanto a minha mãe dançamos de uma forma, afê, insinuante. Eu não sei qual é a desculpa da minha mãe, mas a minha é bem clara e objetiva - eu culpo todas as músicas com as quais eu começei a dançar - "Segura O Tchan", "Dança Da Bundinha", "Na Boquinha da Garrafa", essas coisas. Nas festinhas de play, onde eu dei os meus primeiros passos tímidos e atrapalhados, era isso que tocava. Porra, todas as danças que eu sabia envolviam, em algum momento, "botar as mãos no joelho e dar uma abaixadinha". Eu tinha 12 anos, funkeira, blusinha de lycra e calça strech, pensando em retrospecto, não tinha a menor idéia do que eu estava fazendo ou das consequências eróticas daquilo.
Pensando bem, eu sabia que aquilo era uma manifestação de sexo, só não sabia exatamento sobre que tipo de sexo, que posições, etc. Na verdade o funk, o axé e o pagode fizeram pela minha geração o que o Rock 'N' Roll fez por aquelas meninas branquelas de saia godê dos anos 50 - fizeram a gente se sentir como gente grande. Para mim, quando eu tinha 12 anos, a única coisa que me fazia uma menina, e não uma mulher, era o fato de que mulheres trepavam, e meninas não. Então dançar daquele jeito era um jeito de se sentir mulher, sem ser considerada uma piranha precoce. A Carla Perez foi o Elvis da minha geração, fazer o que...
Eu ainda danço do mesmo jeito que eu dançava, e eu me sinto bem. Eu sinto prazer em provocar, ser desejada sem ser tocada - e tanto subir no palco para cantar um baladão romântico quanto rebolar descendo até o chão são uma manifestação disso. Eu nunca gostei muito de ver homem dançando, acho homem rebolando uma das coisas mais broxantes de todos os tempos - eu gosto do sujeito que fica apoiado no bar, com o copo na mão, me assistindo dançar.
J.
23.10.06
Eu mal posso respeitar a minha respiração. Eu a prendo entre goles de champanhe, eu a esmago com o peito pesado de desejos, com a fumaça de últimos de muitos outros cigarros que ainda virão. Eu sinto saudades, sufoca com sombras escuras, deixa o pulmão estreito, as causas e efeitos distantes. Quando eu estava lá, com você, com seus pés nas minhas pernas sob a inapropriada mesa de churrascaria onde eu passei a minha infância fazendo esculturas com pães de queijo ruins e palitos de dente. Porque você faz isso comigo? Porque você não faz o que eu quero mas não posso pedir?
Eu quero o elusivo vestido branco que cresce frente aos olhos das mulheres na vitrine, o filho que recomendarão que seja abortado, o estúpido laço dourado, as horas entre suco de laranja, jornais que só você lê e começos de dias que começam tarde demais para terminarem cedo. E você lê os jornais pra mim, quebrando os códigos da máfia nos classificados:
“O Tio Altermar Gostaria de Agradecer A Visita De Seus 15 Sobrinhos A Casinha Na Encosta. Esperamos Vê-los Novamente Na Próxima Primavera”
ou alguma coisa do gênero.
E eu ria, tão boba, rindo daquele jeito, escondendo a minha nudez atrás de um lençol estrategicamente largado sobre minhas pernas. E os dias passaram, eu novamente raspei os meus sovacos, as tropeços e solavancos atravessei as multidões que roubavam nossas palavras. E eu agora entendi quase tudo o que você dizia, todas as mensagens subliminares de canções românticas que me fizeram sentir a melhor entre as mulheres por estar nos braços de um sujeito que beijava os meus olhos antes de eu dormir. Eu me perdi depois, sozinha no carro escuro, voltando pra casa sob os olhos de um preocupado taxista enquanto tentava enxugar a água salgada que os meus óculos escuros não conseguiram aprisionar. Deus sabe como eles tentaram.
O amor é uma ferida. Não ponha sal sobre ela. Ela precisa respirar, não a cubra com essas bandagens, não olhe pra ela com medo. Afinal, foi minha voz que me traiu? Foram os óculos? Foram as minhas mãos? Eu quis me entregar, mas ainda não sei como. Você não me deixou entender, só me fez entregar cada vez mais, cada centímetro de um braço a ser beijado, cada suspiro e cada unha partida contra as suas costas.
J.
Que sangue corre nas suas veias?
sangue sujo, sangue de besta
Que nem os cães querem lamber.
E quem vai querer beijar
Essa sua boca azeda,
essa moldura de língua negra?
Alguém virá, alguém virá.
Agora eu lembro, sim, eu lembro,
Da luz fosca de um pêndulo
Da onde gotas de óleo escorriam.
Por que me ungiam nesse altar?
E que altar, que altar era aquele,
Quem me amarrou nele?
E como eu voltei a ser
Essa que agora brinda você,
Com a reza destorcida,
E a boca inquieta.
Que agora transfigurada
Com seus olhos rolando na nuca,
Uma gralha bicando seus seios,
Crisântemos velhos na sua cintura,
Carregados de perfumes -
Que não pertenciam a eles -
Talvez sangue, talvez rede
de esgotos, talvez vislumbre
De algo que não se conhece.
Não, eu nunca fui aquela.
Eu não voltei, cheguei agora.
Eu me perdi, foi numa dessas,
Vamos, já passou da hora,
já doeu e já sarou;
O que restou eles jogaram fora.
E finalmente, estou aqui,
nesse banquete de formas negras:
Erguendo meu corpo sobre a mesa;
Mãos sujas do sangue da besta.
Erguendo a voz e os olhos cegos,
brindando tudo que nego
em um copo pra você.
Pois nada restou,
Nada que possa ser mencionado
Talvez só uma cadeira
Para um novo convidado.
Aspira as horas lentamente,
Decodifica seus perfumes.
O que te salva e te envenena
Nunca virá imune
De castigo ou recompensa.
Desconfia inocentemente
Da sua própria inocência.
Paixão morna e primordial
Deve pulsar entre a mente e os dedos,
Entre o coração e a sola dos pés,
Entre a luz e os olhos acesos.
Entre - sem pressa: ouça -
O vago assobio, o lento sussurro
Que constroe a vastidão do mundo.
Não tenha medo do tempo.
Ele abrirá as covas,
E não irá reabri-las.
Quebra os berços que adormeceram
Ouvindo suas canções antigas.
Não tenha medo do tempo.
Tema, sim, todas as promessas
De corações inoxidáveis,
Não confie nos astetas
Que ostentam sua bondade.
Seja noiva sem véu
Perante o espelho.
Se arrependa, se perdoe,
chore se for preciso,
Só se for preciso.
Eventualmente será preciso.
Você é dessas abençoadas
Com uma alma larga
Que se ergue acima da pele
E se esfrega nua no mundo.
Às vezes contra o arame farpado
De mesquinhos campos marcados
Por círculos de sal.
Às vezes contra o veludo flúido
Que se derrama sobre tudo
Que é belo por si só.
Eu te desejo apenas
Tudo o que você merece,
E nessa longa lista, inclua:
O meu amor, as minhas preces.
Além disso: coragem.
Coragem de ter esperança -
Que ela não falte, te inunde,
essa tão rara e bela,
Mais corajosa das virtudes.
Porque a vida passa rápido
E os sonhos se movem devagar,
E esperança é a certeza
De que eles irão se encontrar.
J.
14.10.06
Novena debulhada
com muito custo,
muito desespero.
Novilha desgarrada,
sem berrante,
sem berreiro.
Foi a estrela perdigueira
que me trouxe até aqui -
Não achei menino ou manjedoura,
só uma mula parda e coxa,
amarrada à um pé de caqui.
No leito do rio seco
M'encurralaram, sem saída.
Mas o leite do seio esquerdo
de Nossa Senhora de Aparecida,
Curou o que não tinha jeito
e atou as pontas partidas.
Eu sobrevivi tudo isso
só pra voltar ao começo
E me acabar de novo.
J.
12.10.06
"I know drinking is not the answer, but it makes me forget what's the question."
("Eu sei que beber não é a resposta, mas me faz esquecer qual é a pergunta")
Essa, como a anterior, saiu em uma conversa com o Mac, meu irmão perdido na South Carolina. Já escrevi sobre ele aqui, é só procurar que você acha. Uma das figuras mais amadas da minha vida.
J.
6.10.06
"I know I have a reputation as a quick tempered person, but that ain't fair. There are 3 things for which I have endless patience for: children, animals and my lovers, which usually are a mix of the 2 previous things..."
(Eu sei que eu tenho uma reputação de esquentadinha, mas não é justo. Tem 3 coisas para as quais eu tenho paciência infindável: crianças, animais e os meus amantes, que normalmente são uma mistura das duas coisas anteriores...")
J.
2.10.06

Venha Nos Dizer
Mais uma em Mi Menor
Esse é você sorrindo
Com apenas cinco anos
E aquele é um tio
Que te olhava meio estranho
Esse é o seu diploma
Essa é a sua chance
Ah, disso você entende
Isso é coisa de gente grande
Te tiramos da forca
Que nós mesmos construímos
Agora venha e nos diga
Como você chegou a isso?
Muita calma nessa hora
Nada disso faz sentido
Isso pouco importa agora
E não se fala mais nisso
Esses eram seus amigos
Mas você arranjou outros
Essa bela te largou
Nesse mato sem cachorro.
Quem é que te visita,
O que você tem lido?
Venha agora e nos diga
Como você chegou a isso?
Desse dia em diante
Tudo isso vai mudar
Essas fotos na estante PONTE
Finalmente vão falar
Nesse caso é diferente
Me inclua fora disso
Essa nunca te amou
Mesmo assim teve o seu filho...
Esse te deve dinheiro,
Isso já perdeu a graça,
Desse mato sai coelho
Dessa vez você me paga.
Alguém te disse um dia
Que esse dia estava vindo
Então venha e nos diga
Como você chegou a isso?
J.
Show No Saloon - Dia 27 de Setembro
É incrível como as fotos podem revelar coisas sobre quem as tirou:Descobrimos que a senhora Natércia Pontes é mais uma podólotra anônima. 
Eu e Nossa Senhora Da Aparecida no peito.

Diab, o leão do Líbano, em toda sua glória dourada.
(ao fundo uma pintura minha)
Um dos nossos maravilhosos homens da camêra. Agradecimentos a todos eles, que sabem que são. YouTube Maktub! Nos aguardem....

Enfim: A gente se fode, mas a gente se diverte.
SET LIST:
- Os Meios E Os Fins
- Sangue Árabe
- Garoto Idiota
- Quando Uma Mulher Chora
- Amor - 0/ Sem Limites (Love - 0/No Limits - Bob Dylan)*
- Carmim*
- Del Rey*
- Eu Mereço
- Flores de Abril
- Powderfinger (Neil Young)
- Blues # 12
- Turalulalula
- Estrada da Vida (Milionário E José Rico)
- Folsom Prison Blues (Johnny Cash)
- Pasárgada
- Rap Do Silva*(Bob Rum)
* - canções tocadas em formato acústico.
Obrigada a todos que compareceram, e esperam que tenham se divertido tanto quanto nós: Próxima parada: Melt, dia 23, Festival Gloss!
J.
22.9.06
20.9.06
canção
Esperou, treze e tal,
No termômetro na esquina.
Um garçom, um sinal,
Matou a sede sozinha.
E sonhou qu'ele vinha
Pra nunca dizer adeus...
Lembra de sentir frio
Na noite que ele esqueceu.
E eu ando nessa rua,
Que agora é só minha,
Me vejo numa poça,
Pois choveu durante o dia.
Qualquer corpo me teria,
Se qualquer fosse o seu...
Lembro de sentir frio
Na noite que ele esqueceu.
São tantas as coisas
Que querem te derrubar, meu bem.
São tantas as pessoas
E você só quer encontrar alguém.
Mas Deus te achou sob uma marquise,
Joelhos na lama e lábios tão tristes,
O que é que te prende nesse lugar?
Correntes, memórias, amor ou azar?
Quanto tempo demora pro tempo passar?
Foi dormir, cinco e tal,
Acordou suando muito...
E dormiu o dia inteiro,
Acordou e estava escuro.
Mas sonhou qu'ele vinha
Sem palavras de adeus...
Lembra de sentir frio,
Na noite que ele esqueceu.
J.
Então eu acordo. Os cães dormem.
J.
Em uma manhã nublada de uma quarta-feira, Otávio desembarcou no Rio de Janeiro. Trazia apenas uma mala de rodinhas, composta cuidadosamente na noite anterior, e uma pasta de couro preta contendo papéis enfadonhos que pautariam a sua visita. Não planejava qualquer aventura turística ou passeio agradável pela orla carioca, fizera esses planos em outras viagens ao Rio e eles se perderam entre os papéis enfadonhos que sempre o acompanhavam. E para Otávio onde não haviam planos não havia vontade – não por simples abdicação resignada, mas porque a alegria dele vinha de ver os planos em ação, não da ação em si.
Viajava muito pouco a lazer e, quando o fazia, se sentia na obrigação de voltar à pequena cidade no extremo sul do país, de onde ele e a esposa provinham, e trazer notícias a sua família saudosa. Aos homens reportava a situação da política e da construção civil de São Paulo enquanto sua esposa e as outras mulheres teciam, com dois dedos de maldade e um de desdém, uma prosa investigativa da vida dos locais. Uma vez ficaram lá por duas semanas: foi o máximo que conseguiram sem que Otávio enlouquecesse com as asneiras do pai, e sem que Sílvia atirasse a sogra por uma das amplas janelas do casarão colonial. Mesmo assim Otávio teve que aturar, durante a viagem de volta, o longo relato da esposa, em ordem cronológica, de picuinha por picuinha: “Nós mal chegamos e ela já...” (...) “Você acredita que logo antes da gente ir ela veio me dizer que...”. Ele conhecia bem a mulher que trazia no banco do passageiro e sabia que um pedido de silêncio seria recebido como ofensa e só resultaria em mais falação. Então simplesmente a deixava discursar enquanto tentava se concentrar na paisagem que se embaçava, encoberta pelas palavras incansavelmente metralhadas por Sílvia. É verdade que em alguns momentos queria esganá-la, mas na maior parte do tempo estava contente por não ter que emitir opinião, só ouvir.
Chegou ao Rio de avião e, quando esse se encontrava a poucos metros da pista, já organizava seus horários, locações e exigências profissionais. Toda sua agenda era construída ao redor da sua necessidade de nove horas de sono diárias. Cada compromisso, hora e hora e meia gastas com olhos abertos era apenas uma subtração do tempo que pretendia gastar dormindo. Morfeu era seu grande e verdadeiro amor.
A primeira coisa a se fazer era ligar para Sílvia. Gostava de fazer isso, ela era sempre doce ao telefone. Depois tomaria banho e iria de encontro aos negócios, no Centro, Avenida Rio Branco. A reunião começaria às dez horas, seria interrompida para um breve mastigar em um restaurante à Kilo. Depois disso a coisa ficava detestavelmente incerta, mas não deveria se estender além do fim da tarde. Então seria preciso voltar ao hotel e escrever relatórios, enviar e-mails, solicitar documentos que pudessem estar em falta.
Otávio ligou para Sílvia; ela foi doce. Chuveirada, táxi, Rio Branco. A comida do restaurante à Kilo era muito ruim, mas ninguém parecia se importar. Acabou no fim da tarde. Mandou e-mails, requereu documentos, escreveu relatórios.
Acordou no dia seguinte vitorioso, com suas nove horas de sono conquistadas e um pouco de baba acumulada no canto da boca. Dormiu esparramado de bruços, bem no meio da cama de casal. Luxo ocasional. Não pode comemorar a vitória com a preguiça – os seus minutos, que compunham aquele fabuloso exército de vinte quatro horas, se sacrificaram bravamente em prol de seu sono; metade de um batalhão de sessenta foi dizimada. Estava atrasado para o seminário.
Saiu apressado, sem tempo de arrumar seus papéis, fazer a cama ou catar as roupas espalhadas no chão. Não gostava de deixar as coisas assim.
No táxi tentava lembrar se o hotel oferecia o serviço de camareiras. Não podia evitar sentir um pouco de vergonha em pensar que havia deixado toda aquela zona para que alguém a organizasse. Entendia que era exatamente essa a natureza do trabalho dessas pessoas. Mas não era isso. O que o incomodava era o fato de que a desordem e o descaso eram tudo que refletia sua existência naquele mundo alugado. Os papéis desorganizados e as roupas dispersas não poderiam dar a impressão correta sobre aquele homem correto, que doava casacos velhos para a campanha do agasalho, que na sua juventude batalhou o direito de sindicatos, que se preocupava tanto com a ordem e a retidão.
Durante o seminário, Otávio não conseguia se concentrar em nada do que era dito pelo principal palestrante. Olhava o relógio, impaciente, e pensava se elas já haviam vindo ou não, se elas estavam lá naquele momento. Reviu, desgostoso, seu último flash do quarto. No banheiro só havia estado para tomar uma ducha...
Não.
Por volta das cinco da manhã acordou com uma ereção. Sim, lembrava-se agora. Foi ao banheiro se aliviar e gozou com força e abundância que não lhe eram comuns. A porra atingiu a parede, na altura de seu umbigo, e escorreu para baixo, volumosa. Limpou tudo com papel higiênico.
Tudo?
Não seria exagero dizer que a esta altura Otávio estava extremamente nervoso. Procurou, no seu vago acervo de imagens daquela punheta sonolenta, algum traço de porra negligenciado na parede, no chão. Os azulejos eram brancos, as luzes não estavam todas acesas, era provável que alguma amostra houvesse permanecido lá, para ser encontrada por elas, para se juntar as outras evidências que comporiam o seu retrato mudo, indefeso, frente aquelas mulheres cruéis. Pois seriam mulheres, com certeza e, com certeza, o julgariam, o pintariam como um porco solitário. De fato seria mais de uma, seriam duas que trocariam entre si achados e risadas. O xingariam por ter de limpar sua esporra, da qual ele próprio tinha nojo.
Talvez ainda não fosse tarde demais. Talvez ainda não. Ligaria para o hotel naquele minuto, proibiria expressamente qualquer visita de qualquer camareira ao quarto 104.
Se espremeu através da platéia lotada a alcançou um corredor silencioso da onde poderia fazer a ligação. Procurou em todos os bolsos, da calça, do paletó e da pasta, o telefone celular. Procurou em vão; na pressa o abandonou na mesa de cabeceira. Não bateu com a cabeça contra a parede, mas teve muita vontade.
Otávio renegou a mesa redonda e se algum colega perguntasse em que pé estava o debate não saberia responder. Nada havia ouvido ou visto. Apanhou um táxi e nem enxergou a praia por onde passou. Calou o motorista, com grunhidos peçonhentos, todas as vezes que ele tentou puxar uma conversa. Otávio pagou e saiu apressado, fazendo o taxista se afastar com um pouquinho mais de fé no estereotipo do paulista estressado.
Passou batido pelo lobby, perguntar qualquer coisa levantaria suspeitas.
Abriu a porta, respiração staccato. Viu a colcha novamente cobrindo a cama, os papéis empilhados junto ao laptop, as roupas penduradas na cadeira. Tarde demais, tarde demais. Desconsolado entrou no banheiro e, acendendo todas as luzes, procurou algum indício do seu espólio viscoso. Não encontrou nada.
Uma hora depois fez o check-out. Passou os dois dias restantes em outro hotel. Não podia mais ficar ali, convivendo com as supostas impressões das camareiras.
Ligou para a esposa para informar a mudança de paradeiro. Ela ficou curiosa e quis saber o porquê daquela migração súbita. Otávio deu de ombros, como se ela pudesse o ver: “Não limpavam direito lá, era muito sujo.”
J.
100 Ditados & Provérbios do Mundo Mulçumano Eu tenho um dicionário, em inglês, de ditados e provérbios mulçumanos que eu simplesmente amo. Sou, no geral, uma apaixonada por esse tipo de coisa - expressões idiomáticas, gírias, figuras de linguagem...Essas coisas são o que temperam qualquer lingua com os traços mais particulares de uma cultura. O genial desses ditados mulçumanos é o fato de que, ao mesmo tempo que eles usam imagens que possam nos parecer um pouco estranhas, a conclusão e a sabedoria é universal. Escolhi cem que eu acho muito bons, e aí estão. Os meus favoritos entre os favoritos estão em negrito.
1- Peça o conselho de cem homens; ignore o conselho de outros cem; depois volte a sua decisão original. (Libanês)
2- O homem que quer se embebedar não conta os copos (Árabe)
3- Todo falcão morre com os olhos na presa. (Árabe)
4- Todo analfabeto que ser primeiro-ministro. (Turco)
5- Nem tudo que é redondo é nós, nem tudo que é comprido é banana. (Libanês)
6- Coma o que você gosta, mas se vista como todo mundo. (Libanês)
7- Se alguém cagar na sua mão, jogue na cara dele. (Maltês)
8- Melhor estar errado como todos do que estar certo sozinho. (Mouro)
9- Não adianta pedir a um cantor que cante ou a um dançarino que dance – eles não o farão. (Libanês)
10- Se você deseja ser obedecido não peça o impossível. (Árabe)
11- A merda sempre cai em quem está embaixo (Libanês)
12- Melhor a tirania do gato do que a justiça dos ratos (Libanês)
13- Hoje você me dá lã, amanhã leva minha ovelha. (Egípcio)
14- O homem solteiro é irmão do diabo. (Tunisiano)
15- Beleza é beleza, sóbrio ou bêbado. (Mouro)
16- De bom dia a um beduíno e você já perde um pedaço de pão. (Marroquino)
17- Deixe os mendigos se casarem e tudo que você terá serão mais mendigos. (Libanês)
18- É mais fácil ser solteiro a vida inteira do que ser viúvo por um mês. (Libanês)
19- O nascimento é mensageiro da morte. (Árabe)
20- Se você encontrar um cego, jogue-o no chão e roube sua comigo – Você não terá sido mais misericordioso que Deus. (Libanês)
21- O homem de um olho só não é cego. (Libanês)
22- Um livro no bolso é um jardim no bolso. (Árabe)
23- Que Deus te aflija com os serviços de um carpinteiro, um pintor e um pedreiro! (Libanês)
24- É melhor ter mil empregados que roubam do que um sócio com quem se deve acertar as contas. (Libanês)
25- Ele queimaria uma cidade para acender seu cigarro. (Libanês)
26- Tem medo de ficar com fome se cagar. (Libanês)
27- Suas palavras são como peido em um chão de pedra. (Libanês)
28- O homem que chora por todos logo perde os olhos. (Turco)
29- Não há luz numa casa sem criança. (Sírio)
30- Aquele que viu a terra dos cristãos desperdiçou os seus dias. (Marroquino)
31- Jante com um judeu, mas busque abrigo na casa do cristão. (Árabe)
32- Quando você vê alguém sentado na rua você sabe que aquilo é melhor que a casa dele. (Mouro)
33- Café sem tabaco é como um judeu sem rabino. (Marroquino)
34- Vinagre barato é tão doce quanto mel. (Árabe)
35- Compre e venda e seu nome não perecerá. (Iraquiano)
36- O bazar não reconhece nem pai nem mãe. (Turco)
37- Até a mão da compaixão é ferida pelo escorpião. (Persa)
38- Faça o que o seu vizinho faz ou feche a porta. (Tunisiano)
39- Quando a neve derrete a merda aparece. (Libanês)
40- O ladrar do cão não afeta as nuvens (Tunisiano)
41- Quando as coisas vão mal, visite o cemitério. (Tunisiano)
42- Quem nunca viu carne fica feliz com tripas. (Omaniano)
43- Todos estão satisfeitos com o cérebro que tem e ninguém está satisfeito com suas finanças. (Omaniano)
44- Se você ama a lua, ignore as estrelas. (Mouro)
45- As palavras da noite são manteiga que derreterá ao amanhecer. (Tunisiano)
46- Para destruir a teia, destrua a aranha. (Maltês)
47- Um suborno remove o turbante do juiz. (Libanês)
48- O homem que vai ao mercado sem nada nos bolsos é ladrão. (Sudanês)
49- O homem sem malandragem é como uma caixa de fósforos vazia. (Omaniano)
50- Até uma maldição, na hora certa, é um louvor à Deus. (Libanês)
51- A morte é um camelo negro que se ajoelha no portão de todo homem. (Árabe)
52 - O cemitério nunca rejeita um corpo. (Libanês)
53- Quem voltou com notícias do túmulo? (Árabe)
54- Quem não foi convidado para o casamento, não vai aparecer no funeral. (Árabe)
55- Seu credor é seu sultão. (Marroquino)
56- Não pense que um homem sabe cozinhar só porque você o vê acendendo o fogo. (Libanês)
57- O poço é fundo, a corda é curta. (Árabe)
58- Quem ama a mulher casada não deve temer a morte. (Maltês)
59- O destino afaga poucos e molesta muitos. (Turco)
60- Lute pela honra pois a desonra é fácil de conseguir. (Árabe)
61- O dia nega as promessas da noite. (Libanês)
62- Tão sem graça quanto um judeu numa mesquita. (Omaniano)
63- Cem amigos são poucos, um inimigo é demais. (Argelino)
64- Olho que elogia, olho que inveja. (Tunisiano)
65- O orvalho não enche o poço vazio. (Árabe)
66- Quem cai no rio não teme a chuva. (Omaniano)
67- Confie em Deus, mas amarre seu camelo. (Turco)
68- Um milhão de obstáculos te atrapalharão até no caminho para a cova. (Libanês)
69- Se um homem entra numa casa que ele sabe estar contaminada pela praga, ele não morre como um mártir. (Árabe)
70- Uma pedra é uma maçã, quando vinda da mão de um amigo. (Árabe)
71- Seus irmãos são os que te compraram, não os que te venderam. (Libanês)
72- Quem te dá alguma coisa já tirou alguma coisa de você. (Maltês)
73- Meninos pensam em navios, meninas pensam no futuro. (Maltês)
74- Deus não é visto. Ele é reconhecido pela mente. (Árabe)
75- Deus é mais misericordioso do que a sua criação. (Árabe)
76- Nenhum fardo é mais pesado do que a gratidão. (Turco)
77- Chore pelos vivos, não pelos mortos. (Turco)
78- Peixes e hóspedes começam a feder depois do terceiro dia. (Beduíno)
79- Quando Deus quer ver um pobre feliz Ele faz ele perder uma moeda e depois encontra-la. (Turco)
80- Só três coisas justificam a pressa: O casamento de uma filha, o enterro de um morto e o jantar de uma visita. (Libanês)
81- O coração, como uma criança, espera pelo que ele deseja. (Turco)
82- O homem é inimigo do que ele não conhece. (Árabe)
83- A cura para os preços altos é a abstinência. (Tunisiano)
84- Quando um governante é justo todos estão no exército. (Persa)
85- O coração gentil não envelhece. (Tunisiano)
86- A forca é para os pobres. (Maltês)
87- A mãe do mentiroso é virgem. (Árabe)
88- Melhor a morte à maconha indiana. (Turco)
89- Quando o trovão peida é porque vai chover merda. (Libanês)
90- Para você a honra, para mim o lucro. (Curdo)
91- Merda nunca vira creme. (Libanês)
92- Tema quem não teme a Deus. (Árabe)
93- O pobre morre antes de o rico dar. (Turco)
94- Antes de entrar, pense em sair. (Árabe)
95- Deus faz o ninho do pássaro cego. (Árabe)
96- Não se comprometa a nada até você ter visto o mar. (Turco)
97- Se alguém aprendesse assistindo todo cachorro seria açougueiro. (Turco)
98- O sono não visita quem tem fome, frio ou medo. (Sírio)
99- Se você falar, não tenha medo. Se tem medo, não fale. (Iraquiano)
100- Um ano ruim tem vinte quatro meses. (Libanês)
J.Dbass (porque é assim que se escreve em árabe - não existe a letra "e")



